Ensaio pessoal sobre o texto “Globalizações, política educacional pedagogia contra-hegemônica” de Afonso Celso Scocuglia
1. INTRODUÇÃO
O objetivo desse trabalho é fazer um ensaio pessoal do texto de Afonso
Celso Scocuglia (2008), o qual argumenta em um sentido contrário a ideia da
inexorabilidade da globalização hegemônica como única saída para o
desenvolvimento, corroborando as teses da existência das várias possibilidades
de globalizações (Boaventura de Souza Santos, 2002), verificando as
convergências e as divergências das relações entre a globalização e a educação,
especialmente quanto ao estabelecimento de uma cultura educacional mundial
comum ou de uma agenda globalmente estruturada para a educação (Roger Dale,
2004).
O autor também procura captar o rebatimento dessas influências nas
políticas educacionais brasileiras entre 1995 e 2002 (Silva Jr., Dourado,
Azevedo et al., 2002). Por fim, ao advogar a ideia de história como possibilidade
do novo, busca destacar as denúncias, as respostas e as propostas de uma
educação contribuinte da globalização contra-hegemônica utilizando alguns dos
principais parâmetros e conceitos da pedagogia crítica de Paulo Freire.
2. ENSAIO PESSOAL SOBRE O TEXTO
“GLOBALIZAÇÕES, POLÍTICA EDUCACIONAL PEDAGOGIA CONTRA-HEGEMÔNICA” DE AFONSO
CELSO SCOCUGLIA
Na primeira parte do texto, o autor faz esclarecimentos, usando
Boaventura de Souza Santos (2002), referentes aos processos que ocorrem na
globalização. Deixa claro o que é globalização hegemônica e contra-hegemônica,
citando alguns exemplos para elucidar as diferenças entre ambas.
O autor descreve muito bem que fica difícil falar do termo “globalização”,
por que essa palavra passa a falsa ideia, de que os processos ditos
“globalizados” são para o bem de todos independente da realidade ou do lugar
onde vivem o que na prática não é bem assim, pois como diz ele “não existe «a
globalização» e, sim, globalizações hegemônicas e contra-hegemônicas”
(SCOCUGLIA, 2008, p.36).
Na segunda parte do texto, o autor relata que os processos hegemônicos de
globalização não se restringem somente aos campos econômicos, suas interferências
também podem ser percebidas nos campos da cultura e da educação. Faz uso do
autor Roger Dale (2004) para embasar sua fala.
A política educacional globalizadora, ditadas pelas agências
financiadoras como o Banco Mundial, o BIRD, o BID, ou reguladoras como a OMC,
das agências culturais como a UNESCO, deixa seus efeitos também nos sistemas
educativos e isso pode ser percebido na padronização curricular que generalizam
todos os sistemas educativos como iguais, desconsiderando e desrespeitando suas
particularidades políticas, econômicas e culturais, e essas, que direta ou
indiretamente, tem influência na construção educacional e cultural de um
sistema educativo.
Os sistemas educacionais são vistos também como instâncias culturais, o
que não deixa de ser verdade, porém para alguns autores são para legitimar
ideologias, valores e culturas de âmbito mundial a fim de padronizar ou ditar
padrões culturais. A essência de um povo, a ideologia, valores e culturas não
podem ser padronizadas, mesmo que políticas mundiais direcionem para isso,
porque a vivência e a história construída por um determinado povo é única, as
experiências vividas não se repetem, se constroem diferentemente em cada lugar,
devido às particularidades dos povos e de suas vivências.
Os órgãos agenciadores da educação procuram direcionar os sistemas
educativos a seguirem os modelos emergentes da sociedade e da educação, gerando
efeitos homogeinizadores minando o impacto de fatores nacionais e locais ao decidirem
a composição do currículo. Sendo assim, as diferenças nacionais dão lugar às
prioridades curriculares e são vistas como desnecessárias podendo desaparecer
ao longo do tempo.
Na terceira parte do texto, o autor traz as ideias de Dale que contrapõem
as ideias de Meyer, o qual defende uma educação padronizada, a partir de uma
matriz mundial. Para Dale, essa matriz curricular mundial, não é de todo ruim,
porém o processo educativo é mais complexo do que parece e, por isso mesmo,
deve-se respeitar as particularidades de cada sistema educativo, dando a eles a
liberdade de acrescentarem suas individualidades. Muitos questionamentos devem
ser feitos, pois os mesmos são importantes para a compreensão de que a educação
não poder estar subordinada a economia e nem ser seu reflexo ou somente sua consequência,
analisando as relações da educação com a desigualdade social, pois a cultura
mundial não é homogênea.
Na quarta parte do texto,
o autor escreve sobre o caso brasileiro no período 1995-2002, período esse em
que o Brasil sofreu uma profunda e grande reforma do Estado e mesmo os
observadores políticos mais atentos, acostumados com as distâncias entre o que
é proclamado e o que é realmente implementado, não conseguiram prever a
extensão de tais reformas. Seus traços principais foram substanciados na
minimização do papel social do Estado, na interpenetração das esferas públicas
e privadas e na privatização crescente da esfera pública, alicerçadas por um
Estado forte internamente e submisso externamente à mundialização do capital,
adepto da globalização hegemônica e do neoliberalismo.
As reformas brasileiras que
aconteceram, foram reflexo das interferências do Banco Mundial, em completa
convergência com o FMI e do movimento planetário orquestrado pela UNESCO,
BIRD/Banco Mundial, órgãos que nortearam as políticas públicas e, no caso da
educação, demarcaram uma adesão tecno-economicista como contrapartida dos seus
empréstimos e investimentos condicionados à adoção, entre outras, de diretrizes
ditadas por esses órgãos. Como complementos e corolários dessa lógica seguem o
redimensionamento da educação profissional e a privatização da educação,
especialmente no grau superior, além da falta de compromisso com a educação
não-formal.
Percebe-se ainda em 2016,
que esses órgãos ditam os caminhos e as diretrizes educacionais do Brasil, assim
como de muitos outros países. Esse novo paradigma pressupõe explicitamente a
subordinação da educação à economia, é lastreado pelas novas tecnologias da
informação e da comunicação e, pior, naturaliza as desigualdades sociais como
fatalidade inevitável. Uma das expressões máximas dessas reformas tem se
verificado no processo de municipalização do ensino fundamental, da educação
infantil e de jovens e adultos. Já no ensino médio, as reformas são objetivadas
no sentido do exercício da cidadania e da organização do trabalho, impostos
pela nova geografia política do planeta, pela globalização econômica e pela
revolução tecnológica. Tais objetivos teriam como base o desenvolvimento das
competências e habilidades necessárias à adaptação e à integração sociais e ao
mundo do trabalho.
Para
finalizar, na quinta parte do texto nas considerações finais, o autor traz a
tona as ideias de Paulo Freire para propor uma educação contribuinte de uma globalização
contra-hegemônica, uma vez que suas ideias são conhecidas no mundo todo e
uma vez que seu legado em todo o mundo têm oferecido denúncias, respostas e propostas convincentes para os principais problemas que as políticas educacionais enfrentam nos últimos quarenta anos, entre os quais destacam-se: bilhões de analfabetos absolutos, funcionais, digitais, políticos; precária escolarização das camadas sociais subalternas; privilégio da educação das elites; educação bancária; reprodução dos processos opressivos em sala de aula; necessidade de reeducação dos educadores e de oferta de condições de trabalho adequadas e qualitativamente melhores; importância das ações dialógicas na educação; impossibilidade de educação neutra e ênfase da politicidade da educação; necessidade da conquista da educação crítica pelas vias/estágios da consciência; aparato educacional voltado para os interesses, valores e necessidades das camadas oprimidas; combate aos determinismos práticos e teóricos; busca da consciência da realidade nacional; a educação e a cultura como exercícios da liberdade; os direitos dos oprimidos ao conhecimento; o trabalho como uma das matrizes do conhecimento político; a esperança e a ousadia que combatem o fatalismo e o medo; a construção da pedagogia da autonomia; as construções dos inéditos viáveis e da utopia da denúncia e do anúncio; enfim, a educação na história como possibilidade de mudança (SCOCUGLIA, 2008, p.47-48).
Paulo Freire já destacava em suas ideias os problemas da educação que
permanecem até hoje, alguns em estado mais grave, outros nem tanto, mas que são
reflexos da globalização e da educação hegemônica que temos no mundo
atualmente, continuando com a cultura da exclusão que utiliza todos os meios e
recursos possíveis, para que o conhecimento e as informações permaneçam nas
mãos de poucos e assim continuem dominando o mundo através da globalização.
A educação continua a ser praticada de maneira tradicional, embora os
professores não admitam essa ideia, talvez porque não se deem conta dessa
camuflagem que os encobre. Embora nossas salas de aula, em geral, continuam a estimular
a apatia, desinteresse e desigualdade e uma das suas reações tem sido a
violência na escola, ou seja, a opressão combatida/respondida pela força bruta,
reflexo do binômio: globalização econômica e neoliberalismo comercial como diz o
autor.
O autor também ressalta outros pensadores que agregam e complementam as
ideias de Freire para pensar as ideias da globalização contra-hegemônica
(debaixo para cima) do cosmopolitismo e do patrimônio comum da humanidade,
mencionado por Boaventura de Sousa Santos. Sendo assim, a formação inicial e
continuada dos docentes, é fundamental para que eles reflitam sobre sua prática
pedagógica e para que percebam que tipo de cidadãos está saindo da escola.
O autor destaca que a
uma educação contribuinte para a globalização contra-hegemônica precisa se nutrir, necessariamente, de uma pedagogia da esperança e da ousadia para combater a pedagogia do fatalismo e do medo. Precisa estar apta a garimpar e a escalar a autonomia para que seus protagonistas persigam a utopia, o inédito que é viável, enfim, a história como possibilidade do novo, da mudança (SCOCUGLIA, 2008, p.47-48).
O autor encerra seu texto destacando a necessidade de enfatizar a
utilização do legado freiriano como um dos alicerces político-pedagógicos das
globalizações contra-hegemônicas. Afinal, a ação dialógica, a conquista da
consciência crítica, a problematização, a pedagogia da autonomia, da ética e da
justiça social podem vir a ser antíteses da educação que hoje ajuda a sustentar
a globalização hegemônica e o neoliberalismo.
3.
CONCLUSÃO
SCOCUGLIA em 2008, escreveu esse texto que retrata
ainda hoje a realidade educacional não só brasileira como a mundial também.
Pouca coisa foi alterada do cenário educacional destacado. As ideias
educacionais da globalização hegemônica continuam difundidas e sendo praticada
pelos educadores, consciente ou inconscientemente.
No Brasil, depois do governo de Fernando Henrique
Cardoso, o que pode ser percebido visivelmente, foi um investimento financeiro
muito maior do que vinha sendo feito até então na educação. Porém, a prática
pedagógica executada nas salas de aula de todo o Brasil ainda não sofreram
grandes alterações. Continua sendo uma prática tradicional e opressora, sendo
regidas pelas normativas dos órgãos internacionais que também ainda regem a
educação brasileira e mundial. Sendo assim muitas mudanças ainda precisam ser
realizadas e a luta por uma educação igualitária continua.
Investiu-se muito na infraestrutura das escolas,
problema fácil de resolver, mas é preciso investir agora na formação dos
educadores para tentar desmitificar esse processo, procurando transformar as
salas de aula em espaços de igualdade de direitos, espaços de reflexão e
formação de cidadania e, esta é a parte mais difícil, complicada e demorada de
ser executada, pois é um processo contínuo, gradativo e demorado. Mas necessita
ser iniciado, para que daqui a muitos anos, consiga-se começar perceber essas
transformações, tão necessárias a formação de um mundo mais igualitário e
justo.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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