3/13/2016

A GLOBALIZAÇÃO E OS POVOS INDÍGENAS KAINGANG DE ENGENHO VELHO/RS


A GLOBALIZAÇÃO E OS POVOS INDÍGENAS KAINGANG DE ENGENHO VELHO/RS


1. INTRODUÇÃO


O presente trabalho tem por objetivo fazer uma análise da globalização e seus efeitos na comunidade Indígena Kaingang que reside no pequeno município de Engenho Velho/RS Brasil, a qual pertence a Reserva Indígena da Serrinha, que abrange terras de quatro municípios e está situada ao norte do Rio Grande do Sul (RS), no Brasil. A análise aqui realizada é embasada no conhecimento adquirido durante esses três anos como Secretária Municipal de Educação e Cultura e nesses 20 anos de trabalho nas escolas municipais de Engenho Velho, onde presenciei e acompanhei de perto, todo o processo de retomada da terra indígena pelos índios kaingang que hoje residem nessa reserva indígena.
Sendo assim, nesses últimos 17 anos de contato com esse povo, participando de reuniões, visitas residenciais a famílias, devido ao meu atual cargo ou ao trabalho enquanto professora, conversas com pais, alunos, jovens e lideranças indígenas, pode-se perceber que aos poucos a globalização vem transformando a identidade cultural dessa comunidade indígena.
Por isso, serão usados nesse trabalho Giddens, Beck, Bauman, Lipovetsky e Stiglitz, por entender que esses autores podem ajudar a compreender e embasar as colocações descritas sobre o tema abordado.


2. A GLOBALIZAÇÃO E OS POVOS INDÍGENAS KAINGANG DE ENGENHO VELHO/RS


A população do mundo atual vive em tempos de mudanças. Muitas dessas mudanças acontecem de forma gradativa e de forma não tão veloz que chegam até serem imperceptíveis, enquanto outras são quase impossíveis de serem acompanhadas, tamanha é sua velocidade de transformação, um exemplo claro dessas mudanças são os avanços tecnológicos, que acontecem numa velocidade impressionante. Con eso, Lipovetsky (2014, p. 05) destaca algunos problemas como: “la conmoción de la sociedad, de las costumbres, del individuo contemporáneo de la era del consumo masificado, la emergencia de un modo de socialización y de individualización, que rompe con el instituido desde los siglos XVII y XVIII”. Sendo assim, essas transformações também atingem a população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil.
Lipovetsky (2014) considera o conceito de personalização como um processo correspondente ao estímulo a uma sociedade baseada na informação e no estímulo das necessidades pessoais. Menos controle e mais flexibilidade das relações humanas levando cada vez mais para o espaço público as emoções privadas e mais íntimas, muitas vezes, manifestadas através das tecnologias nas redes sociais, como o facebook ou whatsApp , que também adentram na reserva indígena com muita força e o mundo da globalização permeia as casas e aos poucos vem influenciando e modificando a cultura do povo Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil.
Passou-se a considerar uma nova forma da sociedade se organizar na qual as instituições se guiam mais pelos desejos, livre dos regulamentos e das regras embora esta nova ordem seja, em si, uma nova regra estabelecida. No lugar do indivíduo submetido às regras sociais, há um estímulo desenfreado ao “direito de ser ele mesmo” em detrimento das relações com o outro e com a sociedade. Para Giddens (1993, p.18):

Las formas de vida introducidas por la modernidad arrasaron de manera sin precedentes todas las modalidades tradicionales del orden social. Tanto en extensión como en intensidad, las transformaciones que ha acarreado la modernidad son más profundas que la mayoría de los tipos de cambio característicos de períodos anteriores.

Percebe-se então uma aldeia indígena que pouco a pouco se miscigena com os não indígenas, agregando seus valores e esquecendo os princípios de seu povo, pois o individualismo e os interesses próprios prevalecem diante dos interesses da própria comunidade e de sua cultura. Muitos espaços que antes tinham sentido e significado a esse povo, hoje já não são tão importantes, assim como afirma Bauman (2012, p.111-112) “Los espacios vacíos están primordialmente vacíos de sentido. No es que sean insignificantes por estar vacíos, sino que, por no tener sentido y porque se cree que no pueden tenerlo, son considerados vacíos (más precisamente, no visibles)”, pois as gerações mais novas estão utilizando e construindo novos espaços. É o chamado direito de ser si mesmo, de aproveitar a vida ao máximo levando a uma super valorização da personalização do indivíduo em outra forma de individualismo.
 “A sociedade moderna era conquistadora, acreditava no futuro, na ciência, na técnica” (Lipovetsky, 1983, p. 9). Na sociedade pós-moderna, as pessoas querem viver o momento atual, aqui e agora, uma sociedade que “no tiene ni ídolo ni tabu, ni tan solo imagen gloriosa de sí misma, ningún proyecto histórico movilizador, estamos ya regidos por el vacío” (Lipovetsky, 1983, p. 9-10). A cultura pós-moderna é voltada para o aumento do individualismo, busca sempre diversificar as opções de escolha, fazendo com que a cada dia que passa as pessoas tenham mais opções de escolha sobre tudo, cultivando uma sociedade extremamente consumista levando as pessoas a perderem a visão crítica sobre os objetos e valores que estão a sua volta, ou seja, uma sociedade cada vez mais líquida como menciona Bauman (2012, p.07), porque “sufren un continuo cambio de forma” estando sempre em transformação. Sendo assim, esta sociedade pós-moderna está fazendo com que a população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, esteja (re)construindo uma nova identidade cultural, mediada pelas tecnologias que adentraram as suas casas, principalmente através dos telefones móveis e da televisão a cabo ou aberta, sendo abocanhados sutilmente pelo mundo da globalização, do individualismo e do consumismo.
Para Bauman (2012), modernidade líquida é a época atual em que vivemos. É o conjunto de relações e instituições, além de sua lógica de operações, que se impõe e que dão base para a contemporaneidade. É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade. Devido a tudo isso e a idéia de facilidades transmitida através dos meios de comunicação, que cada vez essa comunidade indígena muda sua forma de viver, consumindo muito mais, adquirindo bens e serviços até então considerados desnecessários a essa comunidade, que tinha outros valores construídos, na ânsia de se parecer com aquilo que é transmitido nos meios de comunicação de massa e aos valores impostos pela globalização. O amor e o respeito ao meio ambiente, a sua cultura, a sua religião, a sua raça, a sua língua e até a sua forma de se vestir estão visivelmente mudadas, pois tem até indígenas que tem vergonha se serem indígenas e por isso não admitem ser indígenas.
Bauman (2014) usa o termo conexão para descrever as relações frágeis. A conexão é frágil porque o sujeito líquido lida com um mundo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é objetivo e frio, ele ainda causa frustrações e insegurança. O sujeito líquido não tem mais referenciais de ação: toda a autoridade de referência é coloca em si e é sua responsabilidade construir ou escolher normas a serem seguidas – tudo se passa como se tudo fosse uma questão de escolher a melhor opção, com melhores vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem. Com isso, a identidade da população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, vai sutilmente se transformando e com o passar do tempo, quando menos se derem conta muitas coisas de sua cultura e modo de viverem importantes para sua identidade cultural, por exemplo, seu idioma, já foram esquecidas ou até perdidas, sendo engolidos por essa sociedade líquida e globalizada que desesterrioriza as pessoas. Bauman (2014, p.19-20) destaca também:

[...] Para que el poder fluya, el mundo debe estar libre de trabas, barreras, fronteras fortificadas y controles. Cualquier trama densa de nexos sociales, y particularmente una red estrecha con base territorial, implica un obstáculo que debe ser eliminado. Los poderes globales están abocados al desmantelamiento de esas redes, en nombre de una mayor y constante fluidez, que es la fuente principal de su fuerza y la garantía de su invencibilidad. Y el derrumbe, la fragilidad, la vulnerabilidad, la transitoriedad y la precariedad de los vínculos y redes humanos permiten que esos poderes puedan actuar.

Sendo assim a globalização surgiu como uma espécie de tábua de salvação para muitos problemas mundiais, como que poderia ajudar a resolvê-los. Para Stiglitz (2002), a globalização, liderada pelas instituições internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, tinham a promessa de melhorar o mundo, mas isso não se concretizou. O compromisso do Banco Mundial e do FMI com os mercados livres como ideologia levou a muitos erros, em alguns casos drásticos, à custa dos pobres. O problema não é a globalização em si, mas a maneira como está sendo promovida e administrada. Stiglitz (2002, p.62-63) destaca:

La globalización en sí misma no es buena ni mala. Tiene el poder de hacer un bien enorme, y para los países del Este asiático, que han adoptado la globalización bajo sus propias condiciones y a su propio ritmo, ha representado un beneficio gigantesco, a pesar del paso atrás de la crisis de 1997. Pero en buena parte del mundo no ha acarreado beneficios comparables. Y a muchos les parece cercana a un desastre sin paliativos.

Stiglitz (2002, p.45) define a globalização como

[…] es la integración más estrecha de los países y los pueblos del mundo, producida por la enorme reducción de los costes de transporte y comunicación, y el desmantelamiento de las barreras artificiales a los flujos de bienes, servicios, capitales, conocimientos y (en menor grado) personas a través de las fronteras […].

O processo de globalização não é intrinsecamente ruim, mas tem sido acompanhado de políticas que têm causado mais danos do que benefícios aos países em desenvolvimento, entre as quais austeridade fiscal, altas taxas de juros, liberalização do comércio, liberação dos mercados de capitais, privatização e reestruturação do mercado financeiro, processo esse que afeta a todos, inclusive a população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, que na ânsia de consumir mais se tornam cada vez mais pobres, onde muitos sobrevivem dos benefícios sociais que recebem do governo e algumas famílias chegam a passar fome, porém andam com roupas de marca e com telefones de última geração, pois é o que lhes interessa no momento devido a essa influência externa que recebem.
Segundo Stiglitz (2012), essas políticas econômicas são resultado de um compromisso ideológico para liberar mercados que é quase dogmático, especialmente no âmbito do FMI. Ele acredita que o FMI tende a agir segundo os interesses dos credores e das elites ricas em detrimento dos pobres, e que não é suficientemente aberto para as visões e perspectivas destes últimos. Com isso surge o conceito de sociedade de risco que se cruza diretamente com o de globalização: os riscos são democráticos, afetando nações e classes sociais sem respeitar fronteiras de nenhum tipo.
Os processos que passam a delinear-se a partir dessas transformações são ambíguos, coexistindo maior pobreza em massa, crescimento de nacionalismo, fundamentalismos religiosos, crises econômicas, possíveis guerras e catástrofes ecológicas e tecnológicas, e espaços no planeta onde há maior riqueza, tecnificação rápida e alta segurança no emprego. Dentro da reserva indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, pode-se perceber claramente essas diferenças e a pobreza em massa, onde apenas algumas famílias vivem bem e usufruem dos confortos propiciados no século XXI, como carro do ano, telefone móvel último lançamento, roupas de marca, equipamentos e eletrodomésticos modernos, etc. e a grande maioria das famílias mal tem condições de comprar sua própria alimentação, algumas chegando até a passar fome.
O risco de só se torna um risco quando as pessoas tem a percepção dele, isso já dizia Beck em 2000. Então, pode-se considerar um risco a extinção gradativa do idioma Kaingang, pelo menos, considerando-se a população da reserva indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, pois mesmo sendo ofertado nas escolas aulas para preservação desse idioma, muitos indígenas só frequentam essas aulas porque são obrigados pelos pais e muitos nem sendo obrigados não querem frequentar. Sendo que essa oferta também foi um pedido da comunidade indígena, pois é sabedora da importância da conservação do idioma para a identidade cultural desse povo. Para Beck (2000, p.11) “Ahora que ‘nosotros’ sabemos que ‘hay’ posibles riesgos, ‘nosotros’ asumimos una responsabilidad. Esta responsabilidad toma forma de decisión […]”, ou seja não só o poder público tem responsabilidade, como também a comunidade indígena para a preservação de sua identidade cultural. Também, para BECK (2000, p.11).

El concepto de riesgo invierte la relación entre pasado, presente y futuro. El pasado pierde su poder para determinar el presente. El lugar que ocupa como causa de la experiencia presente es ocupado por el futuro, es decir, por algo inexistente, construido y ficticio. Debatimos y discutimos acerca de algo que no sucede pero que podría ocurrir si seguimos caminando en la misma dirección.

Como diz Beck (2000), não se pode continuar pensando alternativas com velhas categorias. A sociologia como disciplina deveria transformar-se, procurando novas teorias, hipóteses e categorias, para evitar converter-se numa “loja de antiguidades especializada na sociedade industrial” e para poder orientar as transformações dos fundamentos das instituições da modernidade. O conceito de sociedade de risco permitiria a compreensão da modernização reflexiva e, por isto, também entender o caminho pelo qual as soluções devem ser formuladas. Giddens (1993) menciona os sistemas peritos que também ajudam a prevenir os riscos e evitar desastres.
Os Sistemas peritos surgem como resultado das revoluções científicas e o aumento em conhecimento técnico e o consequente aumento na especialização. Por causa da sua afirmação de suas formas de conhecimento “científica” e “universal” estes sistemas especialistas não são dependentes de um contexto e podem, a partir disso, estabelecerem relações sociais através de grandes períodos de tempo e espaço. As sociedades modernas passaram a confiar nestes Sistemas Peritos. As vacinas são um exemplo de sistemas peritos que já adentraram na comunidade indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil a muitos anos atrás, pois estão em constante movimento, visitando vários povos e em diversos lugares, havendo a necessidade de serem vacinados a fim de prevenir muitas doenças até então desconhecidas e que não atingia essa população. Mais um aspecto que vem da globalização.
A sociedade de risco preocupa-se muito com os riscos advindos da própria natureza do processo de industrialização, de efeitos perversos ou contraditórios como a contaminação da água e do ar, envenenamento alimentar, ameaça de explosão nuclear. O que para o Beck (2000) é uma espécie de barreira paradoxal da plena modernização da sociedade no seu conjunto, no âmbito da segunda modernidade, porém faz-se necessário pensar também nos aspectos sociais e culturais dessas comunidades interioranas que sofrem a influência e são transformadas pela globalização, sem saber para onde vão nem em que estão se tornando.
Beck (2000) entende que não é possível continuar-se a olhar para a sociedade como tendo principal eixo identitário e de segurança baseado no trabalho, ao mesmo tempo em que o desemprego não abranda o seu crescimento. O autor entende que a divisão da exposição aos riscos cria uma nova estrutura de classe, criando uma forma de estruturalismo das técnicas.  É importante conhecer os riscos para evitar possíveis desastres globais ou locais, identificar o que é necessário preservar e assim, mesmo que utópico, procurar construir uma sociedade mais responsável e reflexiva, que tenha consciência dos riscos e que busque solucioná-los.
Para Giddens (1993) as sociedades tradicionais ou pré-modernas são tidas como baseadas sobre relações sociais as quais são encaixadas no tempo e espaço. Isto acontece pela proximidade que o trabalhador tem da natureza, por causa da sua confiança na agricultura como meio de subsistência, então por isso o senso temporal do trabalhador geralmente é baseado em estações. O tempo para este trabalhador é cíclico (baseado em estações) e local, por isso, pode-se dizer que as populações interioranas demorem mais para perceberem as transformações que ocorrem dentro da própria comunidade, que é o caso da população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, pois vivem em um mundo físico próprio deles, mas não imune a globalização.
Giddens (1993) aponta para a invenção do relógio como um marco importante para a transição das sociedades tradicionais para as modernas. O relógio não é baseado no tempo sazonal, mas num tempo social e artificial. Esta noção de tempo é linear e não cíclica e, portanto pode ser usada para previsões. Igualmente, o relógio permite uma medida de tempo universal e não, como era o caso, de noções tradicionais de tempo, para uma definição um tanto rústica. Tal noção moderna de tempo ajuda a produzir um sentimento entre os indivíduos de que o mundo está encolhendo. As distâncias passaram a diminuir a partir do momento que as comunidades começaram a calibrar seu senso de tempo com o de outra comunidade do outro lado do globo. Para ele o processo de modernização “distanciou” os indivíduos e as comunidades das sociedades tradicionais destas noções estreitas de tempo, espaço e status.
Resumindo, Giddens diz que a modernização e a modernidade são baseadas em um processo, segundo o qual uma idéia fixa e estreita de “lugar” e “espaço” (que prevalece nos tempos modernos) é gradualmente destruída por um cada vez maior conceito de “tempo universal”. Giddens descreve isso como uma chave para o processo de desencaixe.
Giddens sugere que existem dois tipos de mecanismos de desencaixe: Fichas simbólicas (exemplo o dinheiro) e Sistemas Peritos. As comunidades tradicionais foram marcadas pelos mercados e feiras locais. Entretanto, em muitos casos esses mercados eram um suplemento para a atividade essencial e básica de auto-suficiência do trabalhador caseiro, o qual produzia seus próprios meios de subsistência da agricultura O dinheiro tinha um valor limitado para tais artesões por que suas trocas econômicas eram baseadas em impressões de valores locais e particulares.
A modernização destruiu tais formas e as substituiu com uma forma de trocas “universal”: o dinheiro. O dinheiro passou a agir como meio de troca geral e universal, ao contrário das trocas particulares e locais entre os indivíduos. O Dinheiro foi então capaz de mover os indivíduos de contexto local a global e pode então estabelecer relações sociais através do tempo e do espaço. A globalização acelerou o processo que começou com a modernização. Tanto que a população comunidade indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, sai muitas vezes ao ano, viajando por todo o Brasil para vender o artesanato que produzem para conseguir mais dinheiro e assim poder sobreviver. Não vivem conseguem mais viver da agricultura de subsistência, pois o que produzem não chega mais para sobreviver, isso porque está consumindo mais coisas, resultado da modernidade e da globalização, que oferece mais bens de consumo para as pessoas.


3 CONCLUSÃO


Ao concluir esse trabalho, percebe-se que a globalização atinge direta ou indiretamente todas as pessoas do mundo, independentes de sua vontade. Não há como esconder-se ou exilar-se para ficar longe delas. Até as poucas populações indígenas, que ainda conseguem manter-se isoladas em meio à selva, sofrem as consequências da globalização, que é causa/consequência ou vice versa da modernização, uma vez que são atingidas pelos efeitos climáticos e desequilíbrios naturais que vem ocorrendo atualmente.
Sendo assim, a comunidade Indígena Kaingang de Engenho Velho/RS Brasil também sofre os efeitos da globalização e o povo vem alterando seus hábitos de vida bem como toda sua identidade cultural ao estarem vivenciando essas transformações mundiais.
O povo Kaingang que no princípio vivia de caça e de pesca, hoje já não consegue sobreviver disso porque nem grandes áreas de mata tem dentro da reserva, pois a base econômica é a agricultura, o que já os descaracteriza. As áreas agrícolas são arrendadas a não indígenas, sendo praticado a monocultura de soja, milho e trigo, devido isso sobra poucos espaços para o plantio da agricultura de subsistência o que demanda, ainda mais, o comércio de artesanatos em várias parte do Brasil, para assim conseguir sobreviver.
Percebe-se também a influência da globalização na maneira de organizarem-se dentro da comunidade. Antes construíam suas casas umas próximas das outras, formando uma comunidade, para ficarem próximos uns dos outros. Hoje percebe-se que as casas já estão espalhadas por toda a Reserva indígena e isso, também reflete que o seu modo de viver e se organizar está se tornando mais individualista, isolando-se um pouco mais uns dos outros e isso pode ser porque os interesses dos mesmos já não sejam mais os mesmos, ou seja, cada família luta por seus objetivos e não mais pelo interesse da comunidade, como era antigamente.
A globalização influencia também no modo de se vestirem e de falarem, pois os jovens e adolescentes pouco a pouco não exercitam mais o idioma kaigang porque tem vergonha ou porque não os interessa mais. Uma mudança muito clara que pode ser percebida são os hábitos alimentares, cada vez mais consomem comidas e bebidas industrializadas. Por isso também começam a serem portadores de doenças como diabetes, obesidade e câncer, doenças que eram desconhecidas aos indígenas. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BAUMAN, Zygmunt (2012). Modernidad Líquida. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2012.

BECK, Ulrich (2000). “Retorno a la teoría de la ‘Sociedad del Riesgo’”. En: Boletín de la Asociación de Geógrafos Españoles, N° 30. Madrid: Ed. AGE-CSIC, pp. 9-20.

GIDDENS, Anthony (1993). Consecuencias de la modernidad. Madrid: Alianza Editorial. Sección I, pp. 15 - 59.

LIPOVETSKY, Gilles (2014). La era del vacío. Ensayos sobre el individualismo contemporáneo. Barcelona: Editorial Anagrama. Capítulos: “Prefacio” y “Narciso o la estrategia del vacío”.

STIGLITZ, Joseph (2002). El malestar en la globalización. Buenos Aires: Taurus. Capítulo 1: “La promesa de las instituciones globales”.

Ensayo personal sobre el texto “Globalizações, política educacional pedagogia contra-hegemônica” de Afonso Celso Scocuglia


Ensaio pessoal sobre o texto “Globalizações, política educacional pedagogia contra-hegemônica” de Afonso Celso Scocuglia 

1. INTRODUÇÃO


O objetivo desse trabalho é fazer um ensaio pessoal do texto de Afonso Celso Scocuglia (2008), o qual argumenta em um sentido contrário a ideia da inexorabilidade da globalização hegemônica como única saída para o desenvolvimento, corroborando as teses da existência das várias possibilidades de globalizações (Boaventura de Souza Santos, 2002), verificando as convergências e as divergências das relações entre a globalização e a educação, especialmente quanto ao estabelecimento de uma cultura educacional mundial comum ou de uma agenda globalmente estruturada para a educação (Roger Dale, 2004).
O autor também procura captar o rebatimento dessas influências nas políticas educacionais brasileiras entre 1995 e 2002 (Silva Jr., Dourado, Azevedo et al., 2002). Por fim, ao advogar a ideia de história como possibilidade do novo, busca destacar as denúncias, as respostas e as propostas de uma educação contribuinte da globalização contra-hegemônica utilizando alguns dos principais parâmetros e conceitos da pedagogia crítica de Paulo Freire.


2. ENSAIO PESSOAL SOBRE O TEXTO “GLOBALIZAÇÕES, POLÍTICA EDUCACIONAL PEDAGOGIA CONTRA-HEGEMÔNICA” DE AFONSO CELSO SCOCUGLIA


Na primeira parte do texto, o autor faz esclarecimentos, usando Boaventura de Souza Santos (2002), referentes aos processos que ocorrem na globalização. Deixa claro o que é globalização hegemônica e contra-hegemônica, citando alguns exemplos para elucidar as diferenças entre ambas.
O autor descreve muito bem que fica difícil falar do termo “globalização”, por que essa palavra passa a falsa ideia, de que os processos ditos “globalizados” são para o bem de todos independente da realidade ou do lugar onde vivem o que na prática não é bem assim, pois como diz ele “não existe «a globalização» e, sim, globalizações hegemônicas e contra-hegemônicas” (SCOCUGLIA, 2008, p.36).
Na segunda parte do texto, o autor relata que os processos hegemônicos de globalização não se restringem somente aos campos econômicos, suas interferências também podem ser percebidas nos campos da cultura e da educação. Faz uso do autor Roger Dale (2004) para embasar sua fala.
A política educacional globalizadora, ditadas pelas agências financiadoras como o Banco Mundial, o BIRD, o BID, ou reguladoras como a OMC, das agências culturais como a UNESCO, deixa seus efeitos também nos sistemas educativos e isso pode ser percebido na padronização curricular que generalizam todos os sistemas educativos como iguais, desconsiderando e desrespeitando suas particularidades políticas, econômicas e culturais, e essas, que direta ou indiretamente, tem influência na construção educacional e cultural de um sistema educativo.
Os sistemas educacionais são vistos também como instâncias culturais, o que não deixa de ser verdade, porém para alguns autores são para legitimar ideologias, valores e culturas de âmbito mundial a fim de padronizar ou ditar padrões culturais. A essência de um povo, a ideologia, valores e culturas não podem ser padronizadas, mesmo que políticas mundiais direcionem para isso, porque a vivência e a história construída por um determinado povo é única, as experiências vividas não se repetem, se constroem diferentemente em cada lugar, devido às particularidades dos povos e de suas vivências.
Os órgãos agenciadores da educação procuram direcionar os sistemas educativos a seguirem os modelos emergentes da sociedade e da educação, gerando efeitos homogeinizadores minando o impacto de fatores nacionais e locais ao decidirem a composição do currículo. Sendo assim, as diferenças nacionais dão lugar às prioridades curriculares e são vistas como desnecessárias podendo desaparecer ao longo do tempo.
Na terceira parte do texto, o autor traz as ideias de Dale que contrapõem as ideias de Meyer, o qual defende uma educação padronizada, a partir de uma matriz mundial. Para Dale, essa matriz curricular mundial, não é de todo ruim, porém o processo educativo é mais complexo do que parece e, por isso mesmo, deve-se respeitar as particularidades de cada sistema educativo, dando a eles a liberdade de acrescentarem suas individualidades. Muitos questionamentos devem ser feitos, pois os mesmos são importantes para a compreensão de que a educação não poder estar subordinada a economia e nem ser seu reflexo ou somente sua consequência, analisando as relações da educação com a desigualdade social, pois a cultura mundial não é homogênea.
Na quarta parte do texto, o autor escreve sobre o caso brasileiro no período 1995-2002, período esse em que o Brasil sofreu uma profunda e grande reforma do Estado e mesmo os observadores políticos mais atentos, acostumados com as distâncias entre o que é proclamado e o que é realmente implementado, não conseguiram prever a extensão de tais reformas. Seus traços principais foram substanciados na minimização do papel social do Estado, na interpenetração das esferas públicas e privadas e na privatização crescente da esfera pública, alicerçadas por um Estado forte internamente e submisso externamente à mundialização do capital, adepto da globalização hegemônica e do neoliberalismo.
As reformas brasileiras que aconteceram, foram reflexo das interferências do Banco Mundial, em completa convergência com o FMI e do movimento planetário orquestrado pela UNESCO, BIRD/Banco Mundial, órgãos que nortearam as políticas públicas e, no caso da educação, demarcaram uma adesão tecno-economicista como contrapartida dos seus empréstimos e investimentos condicionados à adoção, entre outras, de diretrizes ditadas por esses órgãos. Como complementos e corolários dessa lógica seguem o redimensionamento da educação profissional e a privatização da educação, especialmente no grau superior, além da falta de compromisso com a educação não-formal.
Percebe-se ainda em 2016, que esses órgãos ditam os caminhos e as diretrizes educacionais do Brasil, assim como de muitos outros países. Esse novo paradigma pressupõe explicitamente a subordinação da educação à economia, é lastreado pelas novas tecnologias da informação e da comunicação e, pior, naturaliza as desigualdades sociais como fatalidade inevitável. Uma das expressões máximas dessas reformas tem se verificado no processo de municipalização do ensino fundamental, da educação infantil e de jovens e adultos. Já no ensino médio, as reformas são objetivadas no sentido do exercício da cidadania e da organização do trabalho, impostos pela nova geografia política do planeta, pela globalização econômica e pela revolução tecnológica. Tais objetivos teriam como base o desenvolvimento das competências e habilidades necessárias à adaptação e à integração sociais e ao mundo do trabalho. 
Para finalizar, na quinta parte do texto nas considerações finais, o autor traz a tona as ideias de Paulo Freire para propor uma educação contribuinte de uma globalização contra-hegemônica, uma vez que suas ideias são conhecidas no mundo todo e

 uma vez que seu legado em todo o mundo têm oferecido denúncias, respostas e propostas convincentes para os principais problemas que as políticas educacionais enfrentam nos últimos quarenta anos, entre os quais destacam-se: bilhões de analfabetos absolutos, funcionais, digitais, políticos; precária escolarização das camadas sociais subalternas; privilégio da educação das elites; educação bancária; reprodução dos processos opressivos em sala de aula; necessidade de reeducação dos educadores e de oferta de condições de trabalho adequadas e qualitativamente melhores; importância das ações dialógicas na educação; impossibilidade de educação neutra e ênfase da politicidade da educação; necessidade da conquista da educação crítica pelas vias/estágios da consciência; aparato educacional voltado para os interesses, valores e necessidades das camadas oprimidas; combate aos determinismos práticos e teóricos; busca da consciência da realidade nacional; a educação e a cultura como exercícios da liberdade; os direitos dos oprimidos ao conhecimento; o trabalho como uma das matrizes do conhecimento político; a esperança e a ousadia que combatem o fatalismo e o medo; a construção da pedagogia da autonomia; as construções dos inéditos viáveis e da utopia da denúncia e do anúncio; enfim, a educação na história como possibilidade de mudança (SCOCUGLIA, 2008, p.47-48).


Paulo Freire já destacava em suas ideias os problemas da educação que permanecem até hoje, alguns em estado mais grave, outros nem tanto, mas que são reflexos da globalização e da educação hegemônica que temos no mundo atualmente, continuando com a cultura da exclusão que utiliza todos os meios e recursos possíveis, para que o conhecimento e as informações permaneçam nas mãos de poucos e assim continuem dominando o mundo através da globalização.
A educação continua a ser praticada de maneira tradicional, embora os professores não admitam essa ideia, talvez porque não se deem conta dessa camuflagem que os encobre. Embora nossas salas de aula, em geral, continuam a estimular a apatia, desinteresse e desigualdade e uma das suas reações tem sido a violência na escola, ou seja, a opressão combatida/respondida pela força bruta, reflexo do binômio: globalização econômica e neoliberalismo comercial como diz o autor.
O autor também ressalta outros pensadores que agregam e complementam as ideias de Freire para pensar as ideias da globalização contra-hegemônica (debaixo para cima) do cosmopolitismo e do patrimônio comum da humanidade, mencionado por Boaventura de Sousa Santos. Sendo assim, a formação inicial e continuada dos docentes, é fundamental para que eles reflitam sobre sua prática pedagógica e para que percebam que tipo de cidadãos está saindo da escola.
O autor destaca que a

uma educação contribuinte para a globalização contra-hegemônica precisa se nutrir, necessariamente, de uma pedagogia da esperança e da ousadia para combater a pedagogia do fatalismo e do medo. Precisa estar apta a garimpar e a escalar a autonomia para que seus protagonistas persigam a utopia, o inédito que é viável, enfim, a história como possibilidade do novo, da mudança (SCOCUGLIA, 2008, p.47-48).


O autor encerra seu texto destacando a necessidade de enfatizar a utilização do legado freiriano como um dos alicerces político-pedagógicos das globalizações contra-hegemônicas. Afinal, a ação dialógica, a conquista da consciência crítica, a problematização, a pedagogia da autonomia, da ética e da justiça social podem vir a ser antíteses da educação que hoje ajuda a sustentar a globalização hegemônica e o neoliberalismo.


3. CONCLUSÃO


SCOCUGLIA em 2008, escreveu esse texto que retrata ainda hoje a realidade educacional não só brasileira como a mundial também. Pouca coisa foi alterada do cenário educacional destacado. As ideias educacionais da globalização hegemônica continuam difundidas e sendo praticada pelos educadores, consciente ou inconscientemente. 
No Brasil, depois do governo de Fernando Henrique Cardoso, o que pode ser percebido visivelmente, foi um investimento financeiro muito maior do que vinha sendo feito até então na educação. Porém, a prática pedagógica executada nas salas de aula de todo o Brasil ainda não sofreram grandes alterações. Continua sendo uma prática tradicional e opressora, sendo regidas pelas normativas dos órgãos internacionais que também ainda regem a educação brasileira e mundial. Sendo assim muitas mudanças ainda precisam ser realizadas e a luta por uma educação igualitária continua. 
Investiu-se muito na infraestrutura das escolas, problema fácil de resolver, mas é preciso investir agora na formação dos educadores para tentar desmitificar esse processo, procurando transformar as salas de aula em espaços de igualdade de direitos, espaços de reflexão e formação de cidadania e, esta é a parte mais difícil, complicada e demorada de ser executada, pois é um processo contínuo, gradativo e demorado. Mas necessita ser iniciado, para que daqui a muitos anos, consiga-se começar perceber essas transformações, tão necessárias a formação de um mundo mais igualitário e justo.

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


SCOCUGLIA, Afonso Celso. Globalizações, política educacional pedagogia contra-hegemônica. Revista Ibero Americana de Educacão. Número 48: Septiembre-Diciembre / Setembro-Dezembro 2008. Disponível em: <http://rieoei.org/rie48a01.htm>. Acesso em: 23 de fevereiro de 2016.

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