A GLOBALIZAÇÃO E OS POVOS INDÍGENAS KAINGANG DE ENGENHO VELHO/RS
O presente trabalho tem
por objetivo fazer uma análise da globalização e seus efeitos na comunidade Indígena
Kaingang que reside no pequeno município de Engenho Velho/RS Brasil, a qual
pertence a Reserva Indígena da Serrinha, que abrange terras de quatro
municípios e está situada ao norte do Rio Grande do Sul (RS), no Brasil. A
análise aqui realizada é embasada no conhecimento adquirido durante esses três
anos como Secretária Municipal de Educação e Cultura e nesses 20 anos de
trabalho nas escolas municipais de Engenho Velho, onde presenciei e acompanhei
de perto, todo o processo de retomada da terra indígena pelos índios kaingang
que hoje residem nessa reserva indígena.
Sendo assim, nesses
últimos 17 anos de contato com esse povo, participando de reuniões, visitas residenciais
a famílias, devido ao meu atual cargo ou ao trabalho enquanto professora,
conversas com pais, alunos, jovens e lideranças indígenas, pode-se perceber que
aos poucos a globalização vem transformando a identidade cultural dessa
comunidade indígena.
Por isso, serão usados
nesse trabalho Giddens, Beck,
Bauman, Lipovetsky e Stiglitz, por entender que esses autores podem ajudar a
compreender e embasar as colocações descritas sobre o tema abordado.
A população do mundo
atual vive em tempos de mudanças. Muitas dessas mudanças acontecem de forma
gradativa e de forma não tão veloz que chegam até serem imperceptíveis,
enquanto outras são quase impossíveis de serem acompanhadas, tamanha é sua
velocidade de transformação, um exemplo claro dessas mudanças são os avanços
tecnológicos, que acontecem numa velocidade impressionante. Con eso,
Lipovetsky (2014, p. 05) destaca algunos problemas como: “la conmoción de la
sociedad, de las costumbres, del individuo contemporáneo de la era del consumo
masificado, la emergencia de un modo de socialización y de individualización,
que rompe con el instituido desde los siglos XVII y XVIII”. Sendo assim, essas transformações também
atingem a população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil.
Lipovetsky (2014) considera
o conceito de personalização como um processo correspondente ao estímulo a uma
sociedade baseada na informação e no estímulo das necessidades pessoais. Menos
controle e mais flexibilidade das relações humanas levando cada vez mais para o
espaço público as emoções privadas e mais íntimas, muitas vezes, manifestadas
através das tecnologias nas redes sociais, como o facebook ou whatsApp , que também
adentram na reserva indígena com muita força e o mundo da globalização permeia
as casas e aos poucos vem influenciando e modificando a cultura do povo Kaingang
do município de Engenho Velho/RS Brasil.
Passou-se a considerar uma nova forma da sociedade
se organizar na qual as instituições se guiam mais pelos desejos, livre dos
regulamentos e das regras embora esta nova ordem seja, em si, uma nova regra
estabelecida. No lugar do indivíduo submetido às regras sociais, há um estímulo
desenfreado ao “direito de ser ele mesmo” em detrimento das relações com o
outro e com a sociedade. Para Giddens (1993, p.18):
Las formas de vida
introducidas por la modernidad arrasaron de manera sin precedentes todas las
modalidades tradicionales del orden social. Tanto en extensión como en
intensidad, las transformaciones que ha acarreado la modernidad son más
profundas que la mayoría de los tipos de cambio característicos de períodos
anteriores.
Percebe-se então uma aldeia indígena que pouco a
pouco se miscigena com os não indígenas, agregando seus valores e esquecendo os
princípios de seu povo, pois o individualismo e os interesses próprios
prevalecem diante dos interesses da própria comunidade e de sua cultura. Muitos
espaços que antes tinham sentido e significado a esse povo, hoje já não são tão
importantes, assim como afirma Bauman (2012, p.111-112) “Los espacios vacíos
están primordialmente vacíos de sentido. No es que sean insignificantes por
estar vacíos, sino que, por no tener sentido y porque se cree que no pueden
tenerlo, son considerados vacíos (más precisamente, no visibles)”, pois as gerações
mais novas estão utilizando e construindo novos espaços. É o chamado direito de ser si
mesmo, de aproveitar a vida ao máximo levando a uma super valorização da
personalização do indivíduo em outra forma de individualismo.
“A sociedade moderna era conquistadora,
acreditava no futuro, na ciência, na técnica” (Lipovetsky, 1983, p. 9). Na
sociedade pós-moderna, as pessoas querem viver o momento atual, aqui e agora, uma
sociedade que “no tiene ni ídolo ni tabu, ni tan solo imagen gloriosa de sí
misma, ningún proyecto histórico movilizador, estamos ya regidos por el vacío”
(Lipovetsky, 1983, p. 9-10). A cultura pós-moderna é voltada para o aumento do
individualismo, busca sempre diversificar as opções de escolha, fazendo com que
a cada dia que passa as pessoas tenham mais opções de escolha sobre tudo, cultivando
uma sociedade extremamente consumista levando as pessoas a perderem a visão
crítica sobre os objetos e valores que estão a sua volta, ou seja, uma
sociedade cada vez mais líquida como menciona Bauman (2012, p.07), porque “sufren
un continuo cambio de forma” estando sempre em transformação. Sendo assim, esta
sociedade pós-moderna está fazendo com que a população indígena Kaingang do
município de Engenho Velho/RS Brasil, esteja (re)construindo uma nova
identidade cultural, mediada pelas tecnologias que adentraram as suas casas,
principalmente através dos telefones móveis e da televisão a cabo ou aberta, sendo
abocanhados sutilmente pelo mundo da globalização, do individualismo e do
consumismo.
Para Bauman (2012), modernidade
líquida é a época atual em que vivemos. É o conjunto de relações e
instituições, além de sua lógica de operações, que se impõe e que dão base para
a contemporaneidade. É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de
incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais
morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são
retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da
artificialidade. Devido a tudo isso e a idéia de facilidades transmitida
através dos meios de comunicação, que cada vez essa comunidade indígena muda
sua forma de viver, consumindo muito mais, adquirindo bens e serviços até então
considerados desnecessários a essa comunidade, que tinha outros valores
construídos, na ânsia de se parecer com aquilo que é transmitido nos meios de
comunicação de massa e aos valores impostos pela globalização. O amor e o
respeito ao meio ambiente, a sua cultura, a sua religião, a sua raça, a sua
língua e até a sua forma de se vestir estão visivelmente mudadas, pois tem até
indígenas que tem vergonha se serem indígenas e por isso não admitem ser
indígenas.
Bauman (2014) usa o
termo conexão para descrever as relações frágeis. A conexão é frágil porque o
sujeito líquido lida com um mundo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é
objetivo e frio, ele ainda causa frustrações e insegurança. O sujeito líquido
não tem mais referenciais de ação: toda a autoridade de referência é coloca em
si e é sua responsabilidade construir ou escolher normas a serem seguidas –
tudo se passa como se tudo fosse uma questão de escolher a melhor opção, com
melhores vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem. Com isso, a
identidade da população indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS
Brasil, vai sutilmente se transformando e com o passar do tempo, quando menos
se derem conta muitas coisas de sua cultura e modo de viverem importantes para
sua identidade cultural, por exemplo, seu idioma, já foram esquecidas ou até
perdidas, sendo engolidos por essa sociedade líquida e globalizada que desesterrioriza as
pessoas. Bauman (2014, p.19-20) destaca também:
[...] Para que el poder fluya,
el mundo debe estar libre de trabas, barreras, fronteras fortificadas y
controles. Cualquier trama densa de nexos sociales, y particularmente una red
estrecha con base territorial, implica un obstáculo que debe ser eliminado. Los
poderes globales están abocados al desmantelamiento de esas redes, en nombre de
una mayor y constante fluidez, que es la fuente principal de su fuerza y la
garantía de su invencibilidad. Y el derrumbe, la fragilidad, la vulnerabilidad,
la transitoriedad y la precariedad de los vínculos y redes humanos permiten que
esos poderes puedan actuar.
Sendo assim a globalização
surgiu como uma espécie de tábua de salvação para muitos problemas mundiais, como
que poderia ajudar a resolvê-los. Para Stiglitz (2002), a globalização,
liderada pelas instituições internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, tinham
a promessa de melhorar o mundo, mas isso não se concretizou. O compromisso do
Banco Mundial e do FMI com os mercados livres como ideologia levou a muitos
erros, em alguns casos drásticos, à custa dos pobres. O problema não é a
globalização em si, mas a maneira como está sendo promovida e administrada. Stiglitz
(2002, p.62-63) destaca:
La globalización en sí misma
no es buena ni mala. Tiene el poder de hacer un bien enorme, y para los países
del Este asiático, que han adoptado la globalización bajo sus propias condiciones
y a su propio ritmo, ha representado un beneficio gigantesco, a pesar del paso
atrás de la crisis de 1997. Pero en buena parte del mundo no ha acarreado
beneficios comparables. Y a muchos les parece cercana a un desastre sin
paliativos.
Stiglitz (2002, p.45)
define a globalização como
[…] es la integración más
estrecha de los países y los pueblos del mundo, producida por la enorme
reducción de los costes de transporte y comunicación, y el desmantelamiento de
las barreras artificiales a los flujos de bienes, servicios, capitales,
conocimientos y (en menor grado) personas a través de las fronteras […].
O processo de
globalização não é intrinsecamente ruim, mas tem sido acompanhado de políticas
que têm causado mais danos do que benefícios aos países em desenvolvimento,
entre as quais austeridade fiscal, altas taxas de juros, liberalização do
comércio, liberação dos mercados de capitais, privatização e reestruturação do
mercado financeiro, processo esse que afeta a todos, inclusive a população indígena
Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, que na ânsia de consumir mais
se tornam cada vez mais pobres, onde muitos sobrevivem dos benefícios sociais
que recebem do governo e algumas famílias chegam a passar fome, porém andam com
roupas de marca e com telefones de última geração, pois é o que lhes interessa
no momento devido a essa influência externa que recebem.
Segundo Stiglitz (2012),
essas políticas econômicas são resultado de um compromisso ideológico para
liberar mercados que é quase dogmático, especialmente no âmbito do FMI. Ele
acredita que o FMI tende a agir segundo os interesses dos credores e das elites
ricas em detrimento dos pobres, e que não é suficientemente aberto para as
visões e perspectivas destes últimos. Com isso surge o conceito de sociedade de
risco que se cruza diretamente com o de globalização: os riscos são
democráticos, afetando nações e classes sociais sem respeitar fronteiras de
nenhum tipo.
Os processos que passam
a delinear-se a partir dessas transformações são ambíguos, coexistindo maior
pobreza em massa, crescimento de nacionalismo, fundamentalismos religiosos,
crises econômicas, possíveis guerras e catástrofes ecológicas e tecnológicas, e
espaços no planeta onde há maior riqueza, tecnificação rápida e alta segurança
no emprego. Dentro da reserva indígena Kaingang do município de Engenho
Velho/RS Brasil, pode-se perceber claramente essas diferenças e a pobreza em
massa, onde apenas algumas famílias vivem bem e usufruem dos confortos
propiciados no século XXI, como carro do ano, telefone móvel último lançamento,
roupas de marca, equipamentos e eletrodomésticos modernos, etc. e a grande
maioria das famílias mal tem condições de comprar sua própria alimentação,
algumas chegando até a passar fome.
O risco de só se torna
um risco quando as pessoas tem a percepção dele, isso já dizia Beck em 2000.
Então, pode-se considerar um risco a extinção gradativa do idioma Kaingang,
pelo menos, considerando-se a população da reserva indígena Kaingang do
município de Engenho Velho/RS Brasil, pois mesmo sendo ofertado nas escolas
aulas para preservação desse idioma, muitos indígenas só frequentam essas aulas
porque são obrigados pelos pais e muitos nem sendo obrigados não querem
frequentar. Sendo que essa oferta também foi um pedido da comunidade indígena,
pois é sabedora da importância da conservação do idioma para a identidade
cultural desse povo. Para Beck (2000, p.11) “Ahora que ‘nosotros’
sabemos que ‘hay’ posibles riesgos, ‘nosotros’ asumimos una responsabilidad. Esta responsabilidad toma forma de
decisión […]”, ou seja não só o poder público tem responsabilidade, como também
a comunidade indígena para a preservação de sua identidade cultural. Também,
para BECK (2000, p.11).
El concepto de riesgo invierte la relación entre pasado, presente y
futuro. El pasado pierde su poder para determinar el presente. El lugar que
ocupa como causa de la experiencia presente es ocupado por el futuro, es decir,
por algo inexistente, construido y ficticio. Debatimos y discutimos acerca de
algo que no sucede pero que podría ocurrir si seguimos caminando en la misma
dirección.
Como diz Beck (2000),
não se pode continuar pensando alternativas com velhas categorias. A sociologia
como disciplina deveria transformar-se, procurando novas teorias, hipóteses e
categorias, para evitar converter-se numa “loja de antiguidades especializada
na sociedade industrial” e para poder orientar as transformações dos
fundamentos das instituições da modernidade. O conceito de sociedade de risco
permitiria a compreensão da modernização reflexiva e, por isto, também entender
o caminho pelo qual as soluções devem ser formuladas. Giddens (1993) menciona
os sistemas peritos que também ajudam a prevenir os riscos e evitar desastres.
Os Sistemas peritos
surgem como resultado das revoluções científicas e o aumento em conhecimento
técnico e o consequente aumento na especialização. Por causa da sua afirmação
de suas formas de conhecimento “científica” e “universal” estes sistemas
especialistas não são dependentes de um contexto e podem, a partir disso,
estabelecerem relações sociais através de grandes períodos de tempo e espaço. As
sociedades modernas passaram a confiar nestes Sistemas Peritos. As vacinas são
um exemplo de sistemas peritos que já adentraram na comunidade indígena
Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil a muitos anos atrás, pois
estão em constante movimento, visitando vários povos e em diversos lugares,
havendo a necessidade de serem vacinados a fim de prevenir muitas doenças até
então desconhecidas e que não atingia essa população. Mais um aspecto que vem
da globalização.
A sociedade de risco preocupa-se
muito com os riscos advindos da própria natureza do processo de
industrialização, de efeitos perversos ou contraditórios como a contaminação da
água e do ar, envenenamento alimentar, ameaça de explosão nuclear. O que para o
Beck (2000) é uma espécie de barreira paradoxal da plena modernização da
sociedade no seu conjunto, no âmbito da segunda modernidade, porém faz-se
necessário pensar também nos aspectos sociais e culturais dessas comunidades
interioranas que sofrem a influência e são transformadas pela globalização, sem
saber para onde vão nem em que estão se tornando.
Beck (2000) entende que
não é possível continuar-se a olhar para a sociedade como tendo principal eixo
identitário e de segurança baseado no trabalho, ao mesmo tempo em que o
desemprego não abranda o seu crescimento. O autor entende que a divisão da
exposição aos riscos cria uma nova estrutura de classe, criando uma forma de
estruturalismo das técnicas. É
importante conhecer os riscos para evitar possíveis desastres globais ou
locais, identificar o que é necessário preservar e assim, mesmo que utópico,
procurar construir uma sociedade mais responsável e reflexiva, que tenha consciência
dos riscos e que busque solucioná-los.
Para Giddens (1993) as
sociedades tradicionais ou pré-modernas são tidas como baseadas sobre relações
sociais as quais são encaixadas no tempo e espaço. Isto acontece pela
proximidade que o trabalhador tem da natureza, por causa da sua confiança na
agricultura como meio de subsistência, então por isso o senso temporal do
trabalhador geralmente é baseado em estações. O tempo para este trabalhador é
cíclico (baseado em estações) e local, por isso, pode-se dizer que as
populações interioranas demorem mais para perceberem as transformações que
ocorrem dentro da própria comunidade, que é o caso da população indígena
Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, pois vivem em um mundo físico
próprio deles, mas não imune a globalização.
Giddens (1993) aponta
para a invenção do relógio como um marco importante para a transição das
sociedades tradicionais para as modernas. O relógio não é baseado no tempo
sazonal, mas num tempo social e artificial. Esta noção de tempo é linear e não
cíclica e, portanto pode ser usada para previsões. Igualmente, o relógio
permite uma medida de tempo universal e não, como era o caso, de noções
tradicionais de tempo, para uma definição um tanto rústica. Tal noção moderna
de tempo ajuda a produzir um sentimento entre os indivíduos de que o mundo está
encolhendo. As distâncias passaram a diminuir a partir do momento que as
comunidades começaram a calibrar seu senso de tempo com o de outra comunidade
do outro lado do globo. Para ele o processo de modernização “distanciou” os
indivíduos e as comunidades das sociedades tradicionais destas noções estreitas
de tempo, espaço e status.
Resumindo, Giddens diz
que a modernização e a modernidade são baseadas em um processo, segundo o qual
uma idéia fixa e estreita de “lugar” e “espaço” (que prevalece nos tempos
modernos) é gradualmente destruída por um cada vez maior conceito de “tempo
universal”. Giddens descreve isso como uma chave para o processo de desencaixe.
Giddens sugere que
existem dois tipos de mecanismos de desencaixe: Fichas simbólicas (exemplo o
dinheiro) e Sistemas Peritos. As comunidades tradicionais foram marcadas pelos
mercados e feiras locais. Entretanto, em muitos casos esses mercados eram um
suplemento para a atividade essencial e básica de auto-suficiência do
trabalhador caseiro, o qual produzia seus próprios meios de subsistência da
agricultura O dinheiro tinha um valor limitado para tais artesões por que suas
trocas econômicas eram baseadas em impressões de valores locais e particulares.
A modernização destruiu
tais formas e as substituiu com uma forma de trocas “universal”: o dinheiro. O
dinheiro passou a agir como meio de troca geral e universal, ao contrário das
trocas particulares e locais entre os indivíduos. O Dinheiro foi então capaz de
mover os indivíduos de contexto local a global e pode então estabelecer
relações sociais através do tempo e do espaço. A globalização acelerou o
processo que começou com a modernização. Tanto que a população comunidade
indígena Kaingang do município de Engenho Velho/RS Brasil, sai muitas vezes ao
ano, viajando por todo o Brasil para vender o artesanato que produzem para
conseguir mais dinheiro e assim poder sobreviver. Não vivem conseguem mais
viver da agricultura de subsistência, pois o que produzem não chega mais para
sobreviver, isso porque está consumindo mais coisas, resultado da modernidade e
da globalização, que oferece mais bens de consumo para as pessoas.
Ao concluir esse
trabalho, percebe-se que a globalização atinge direta ou indiretamente todas as
pessoas do mundo, independentes de sua vontade. Não há como esconder-se ou
exilar-se para ficar longe delas. Até as poucas populações indígenas, que ainda
conseguem manter-se isoladas em meio à selva, sofrem as consequências da
globalização, que é causa/consequência ou vice versa da modernização, uma vez
que são atingidas pelos efeitos climáticos e desequilíbrios naturais que vem
ocorrendo atualmente.
Sendo assim, a comunidade
Indígena Kaingang de Engenho Velho/RS Brasil também sofre os efeitos da
globalização e o povo vem alterando seus hábitos de vida bem como toda sua
identidade cultural ao estarem vivenciando essas transformações mundiais.
O povo Kaingang que no
princípio vivia de caça e de pesca, hoje já não consegue sobreviver disso
porque nem grandes áreas de mata tem dentro da reserva, pois a base econômica é
a agricultura, o que já os descaracteriza. As áreas agrícolas são arrendadas a
não indígenas, sendo praticado a monocultura de soja, milho e trigo, devido isso
sobra poucos espaços para o plantio da agricultura de subsistência o que
demanda, ainda mais, o comércio de artesanatos em várias parte do Brasil, para
assim conseguir sobreviver.
Percebe-se também a
influência da globalização na maneira de organizarem-se dentro da comunidade.
Antes construíam suas casas umas próximas das outras, formando uma comunidade,
para ficarem próximos uns dos outros. Hoje percebe-se que as casas já estão
espalhadas por toda a Reserva indígena e isso, também reflete que o seu modo de
viver e se organizar está se tornando mais individualista, isolando-se um pouco
mais uns dos outros e isso pode ser porque os interesses dos mesmos já não
sejam mais os mesmos, ou seja, cada família luta por seus objetivos e não mais
pelo interesse da comunidade, como era antigamente.
A globalização
influencia também no modo de se vestirem e de falarem, pois os jovens e
adolescentes pouco a pouco não exercitam mais o idioma kaigang porque tem
vergonha ou porque não os interessa mais. Uma mudança muito clara que pode ser
percebida são os hábitos alimentares, cada vez mais consomem comidas e bebidas
industrializadas. Por isso também começam a serem portadores de doenças como
diabetes, obesidade e câncer, doenças que eram desconhecidas aos indígenas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Zygmunt
(2012). Modernidad Líquida. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2012.
BECK, Ulrich (2000). “Retorno a la teoría de la ‘Sociedad del Riesgo’”. En:
Boletín de la Asociación de Geógrafos Españoles, N° 30. Madrid: Ed. AGE-CSIC,
pp. 9-20.
GIDDENS, Anthony (1993). Consecuencias de la modernidad. Madrid: Alianza
Editorial. Sección I, pp. 15 - 59.
LIPOVETSKY, Gilles (2014). La era del vacío. Ensayos sobre el
individualismo contemporáneo. Barcelona: Editorial Anagrama. Capítulos:
“Prefacio” y “Narciso o la estrategia del vacío”.
STIGLITZ, Joseph (2002). El malestar en la globalización. Buenos Aires:
Taurus. Capítulo 1: “La promesa de las instituciones globales”.