O MESTRE IGNORANTE: CINCO LIÇÕES
SOBRE A EMANCIPAÇÃO INTELECTUAL
LEONARA PIRAN FRIGERI[1]
RESUMO:
A
obra O Mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual, menciona que em oposição ao
princípio do Embrutecimento, surge o princípio da Emancipação e neste, pode-se
ensinar qualquer coisa mesmo desconhecendo o assunto desde que se emancipe o
aluno, estimulando-o a desenvolver sua própria inteligência e este seria o
Ensino Universal. Já no método Embrutecedor, o da explicação, o mestre
mantém-se distante do aluno, pois transmite um conhecimento fragmentado, onde o
aluno terá de esperar para aprender mais no ano seguinte, deixando o mestre num
grau superior ao seu, ou seja, o aluno, precisará sempre de um mestre
explicador para continuar a aprender. Rancière, através da célebre obra, revela
de forma clara que a vontade de aprender é o que leva o homem a aprender.
Afinal, um ser humano pode o que pode qualquer ser humano. Advém daí a idéia de
uma sociedade de emancipados, onde todos saberiam que não existe desigualdade
de inteligências. O que existe é a busca e a ambição por sempre querer saber
mais e mais.
Palavras-chave: Embrutecimento. Emancipação. Vontade
de aprender. Inteligência. Emancipação Intelectual.
SUMMARY: The ignorant master work: five
lessons in intellectual emancipationmentions that in opposition to the
principle of Brutalization, arises the principle of emancipation. In the latter
you can teach anything at all unaware of it since if the student by stimulating
emancipe him to develop his own intelligence. And this would be the Universal
Education. In the explanation, brutal method, the master remains distant from
the student, as a fragmented knowledge channel, in parts, where the student
will have to wait to learn more the following year, leaving the master a higher
grade to your. In other words, the pupil, will need a master tutor to continue
to learn. Rancière, through the famous work, reveals clearly that the
willingness to learn is what drives men to learn. After all, a human being can
what can any human being. From there the idea of an emancipated society, where
everyone would know that there is no gender inequality intellects. What exists
is the search and the ambition for always wanting to know more and more.
Keywords: Degradation. Emancipation.
Willingness to learn. Intelligence. Intellectual Emancipation.
O Mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação
intelectual, de autoria de Jacques Rancière, é uma obra de cunho filosófico e
traz-nos importantes reflexões sobre a emancipação intelectual dos indivíduos, discutida
através da relação entre a educação e a pedagogia, pois “todos os homens têm
igual inteligência” e a instrução é como a liberdade, ou seja, não é uma
dádiva, precisa de ser conquistada. É um livro que aborda questões
fundamentais
sobre o ensino, com proeminência a educação universal, desenvolvido pelo
pedagogo Joseph Jacotot, que considerou o caminho para emancipação intelectual.
Ao
ler a obra de Rancière vemos que no método emancipador pode-se ensinar qualquer
coisa, mesmo sendo ignorante no assunto. Entretanto, para isso, é necessário
emancipar o aluno, ou seja, fazer com que o aluno aprenda sozinho, usando
apenas sua própria inteligência, e este seria o Ensino Universal, ou seja, o
olhar bem para si mesmo, refletir sempre, pois a questão envolvida aqui não é o
que o indivíduo sabe ou sobre aquilo que ele não sabe, mas sim sobre o que ele
pensa. A obra também aponta que, para emancipar a outrem, é preciso emancipar a
si próprio. “É preciso conhecer-se a si mesmo como viajante do espírito,
semelhante a todos os outros viajantes, como sujeito intelectual que participa
da potência comum dos seres intelectuais.” (RANCIÈRE, 2002, p. 57). E aqui o
viajante do espírito se refere àquele que adquire conhecimento.
Em outras palavras, toda a manifestação humana é um arcabouço
de oportunidades para o crescimento intelectual, justamente por existir no seio
de qualquer manifestação humana um quê de ardiloso, de valioso e intencional.
Podemos, então, referir que o autor assume o pressuposto de que não há
hierarquia de capacidade intelectual, indicador necessário para fomentar a
emancipação.
Sob essa perspectiva, Jacotot desenvolveu seu
próprio método que começa pelo texto e não pela gramática, considerando que o
método que começa pelas letras “dirige os alunos segundo o princípio da
desigualdade intelectual e, sobretudo, da inferioridade intelectual das
crianças” (Rancière, 2007: 49). É fundamental que o sujeito seja capaz de
interpretar a realidade que o circunda e perceber-se como sujeito participativo
no seu contexto social, político e cultural, pois “a emancipação é, antes de
tudo, o inventário das competências intelectuais do ignorante” (Rancière, 2007:
61). Nesse sentido, é essencial buscar o todo da inteligência humana em cada
manifestação cultural, pois o que embrutece as pessoas não é a ausência de
instrução, mas sim a interiorização que as faz acreditar que têm competências e
inteligências inferiores.
O desenvolvimento da inteligência pode ser visto
como uma associação entre a vontade e o poder racional. É a vontade de aprender
e de procurar incessantemente, por iniciativa própria, que confere significado
às coisas. Esta racionalidade, guiada pela vontade, gera a verdade. Segundo
Ranciére, o princípio da veracidade resulta da experiência da emancipação. No
processo de emancipação o homem aproxima-se da verdade, pois a “verdade existe
por si mesma; ela é o que é e não o que é dito” (Ranciére, 2007: 88). Neste
caso, o mestre explicador desempenha uma função perversa ao limitar os
percursos emancipadores de cada indivíduo.
A improvisação é o caminho fundamental para a
emancipação e constitui o exercício fundamental para o homem se manifestar, se
conhecer e comunicar na e por meio de sua cultura. Assim, a virtude da nossa
inteligência está mais em fazer do que em saber. E, como esse fazer é, fundamentalmente,
um ato de comunicação, é pela palavra que o saber prolifera: “os pensamentos
voam de um espírito a outro nas asas da palavra”, diz o mestre; “todo saber
fazer é um querer dizer” (Ranciére, 2007: 98). A emancipação intelectual
proposta por Rancière funciona no âmbito de uma lógica individual, que não
repercute necessariamente na ordem social.
O espírito humano, sendo caracterizado pelo binômio
vontade e inteligência, pode operar de modo atento ou distraído. É a falta de
vontade de operar a racionalidade através da inteligência o que dá origem à
distração. Esta distração significa um desaproveitamento da potencialidade intelectual.
Daí a dicotomia homem/cidadão e emancipação intelectual/emancipação
social. O homem detém a possibilidade da razão, mas esta é inviável para o
cidadão; o homem poder-se-á, emancipar intelectualmente e criar uma base de
reconhecimento de igualdade entre outros homens que se comunicam, mas esta não
se transforma inevitavelmente em igualdade social.
A ideia de emancipação em Rancière é sempre
perspectivada numa lógica da relação de indivíduo para indivíduo. A educação
será para além de um meio de emancipação intelectual, mas também um meio de
emancipação social. O método emancipador de Jacotot difunde a ideia de que
todos os homens possuem igual inteligência e “somente um homem pode emancipar
outro homem”. As instituições escolares não conseguem realizar tal ação, pois
estão impregnadas de valores, de crenças e intencionalidades, e ao formatar
este homem, de acordo com esses princípios, ignora o aprendiz dentro da sua
história de vida e de seus saberes acumulados antes da sua entrada na
instituição escolar. Por isso Rancière, afirma em diversas passagens do livro
que o “... Ensino Universal não pode se dirigir senão a indivíduos, jamais à
sociedade” (Rancière, 2007: 147).
O Ensino Universal é dirigido a todos, sobretudo aos
pobres, que são aqueles que não têm condições de pagar pelo trabalho de um
explicador ou de investir longos anos na escola. O Ensino Universal é libertador,
emancipador e cria a possibilidade do sujeito se conhecer, bem como conhecer o
contexto que o cerca.
Acredito
que o apontamento referente à emancipação trazido na obra causa um determinado
espanto, e também questionamentos, pois um ser humano emancipado é muito
difícil. Entretanto quando começamos a nos conhecer, a nos cuidar, nós vemos
como somos dominados por nossos desejos, e esse cuidar de si implica em cuidar
do que nos é mais importante. Assim o acesso ao conhecimento de si, passa por
duas vertentes; o conhecer a si mesmo e o cuidar de si próprio. Nós começamos a
nos conhecer a partir do olhar do outro e cuidamos de nós quando não nos
esquecemos quem somos, e esses são aspectos que estão imbricados.
Emancipar-se
é um movimento que exige esforço, é arriscar-se, é o movimento daqueles que
estão abertos a repensar seus valores e dispostos a renová-los e recriá-los
constantemente, mas é também não se distrair do que fundamentalmente somos, é
não aceitar tudo sem exame, pois quando assim fazemos pensamos ser aquilo que o
outro diz que somos. O homem é um sujeito pensante, mas tem a experiência de si
próprio com a ação, sem a ação não existe nada e a ação na inteligência é ver e
comparar, portanto não existe uma emancipação que seja para sempre, conhecer a
si mesmo trata-se de um movimento sem fim.
É
interessante perceber também que relativamente temos que reestruturar nossa
mente para podermos aprender, o autor lamenta que as pessoas interiorizem a
questão da superioridade ou da inferioridade. Entretanto quando rompemos com
superioridade e a inferioridade nós somos livres, tal como também cheio de
responsabilidades.
Para
Jacques Rancière, o problema da autoridade é uma questão importante e isso na
pedagogia é algo constante, contextualizando, podemos citar como exemplo o
comportamento de alguns educadores que na falta de paciência diante uma classe
de alunos agitados acaba-se por vezes gritando com os estudantes.
Acredito
que o livro não trás a proposta do total abandono da relação mestre e aluno,
mas nos provoca a pensar na reestruturação dessa relação, como fez o Joseph
Jacotot. O professor francês viu-se primeiramente como um ignorante diante a
situação pela qual passava, ele próprio reformulou seu pensamento sobre o ato
de ensinar após a experiência que teve com seus alunos após a leitura do
Telêmaco. A partir dessa experiência vivida por Jacotot podemos perceber que
para levar os alunos à emancipação o professor deve emancipar-se, abandonar a
ideia de detentor do saber e adotar uma postura de provocador da inteligência
de seus alunos.
Entendo
que muitas questões acerca do papel do professor podem ser levantadas com a
leitura de “O mestre ignorante”, mas vale ressaltar que uma das propostas trazidas
no livro é de instigar e possibilitar ao educando o confronto com suas inúmeras
possibilidades. A atitude de Jacotot nos faz refletir sobre a questão da
necessidade de explicação do mestre, sobre a igualdade das inteligências,
entretanto penso que embora Jacotot tenha conseguido emancipar seus alunos, a
presença do mestre ainda é importante e tem suas contribuições, pois segundo o
autor, também se aprende coisas na escola de embrutecedores, entretanto ela
assume um novo desafio, o de dar ao aluno a oportunidade de externar sua
inteligência e suas capacidades sem que haja medo, este muitas vezes provocado
pela figura de um professor inflexível que se mantém a todo tempo como aquele
que não pode ser confrontado.
O
conhecimento continua sendo o único caminho para a liberdade, a autonomia, a
consciência crítica e a emancipação intelectual. Até as pessoas mais ignorantes
podem ter conhecimento sobre infinitas coisas. O professor ou mestre deve ser
apenas um mediador da aprendizagem, um facilitador. Segundo Rancière o mestre
ignorante, não é aquele que ignora o que o aluno deve aprender, mas que “ignora
as desigualdades”. Para Jacques a relação que deve perdurar entre professores e
alunos é de inteligência para inteligência. É só a partir desse método que as
desigualdades se dissolvem e o aluno pode se sentir confiante e livre para
aprender.
Com
Jacotot o aluno absorve um novo papel, ele não deve memorizar conteúdos ou
apenas assimilar o que o professor ensinou, mas deve ser um indivíduo ativo,
buscando ser o criador e protagonista de seu próprio conhecimento. A construção
dos conhecimentos acontece quando um sujeito pensante produz sua identidade,
sua inteligência, sua autonomia de modo particular, onde os indivíduos se
eduquem reciprocamente, vigiados pela cultura, na própria realidade em que
vivem. Dessa forma, os indivíduos tornam-se produtores do conhecimento, e não
meros reprodutores do saber, onde, segundo Ranciere “é o discípulo que faz o
mestre”.
Em
toda sua obra Jacques quebra os paradigmas do velho ensinamento quando diz que
o mito da pedagogia é a explicação. Isso é muito interessante, pois [...] o
segredo do gênio é o do ensino universal: aprender, repetir, imitar, traduzir,
decompor, recompor [...]
Por
fim, urge enfatizar que se Jacques pudesse apregoaria em todos os murais
possíveis o que está escrito na página 111: “é preciso anunciar o ensino
universal a todos. Antes de tudo aos pobres, sem qualquer dúvida: eles não têm
outro meio de se instruírem, não podem pagar explicadores universais, nem passar
longos anos nos bancos escolares”. Esse último trecho é o sumo do livro (...)
onde todos os métodos apresentados são muito importantes e essenciais pra uma
verdadeira aprendizagem.
REFERENCIAS
RANCIÈRE,
Jacques. O Mestre Ignorante: cinco
lições sobre a emancipação intelectual (trad. Lilian do Valle). Belo Horizonte:
Autêntica, 2002.