3/29/2015

Artigo: O MESTRE IGNORANTE: CINCO LIÇÕES SOBRE A EMANCIPAÇÃO INTELECTUAL

O MESTRE IGNORANTE: CINCO LIÇÕES SOBRE A EMANCIPAÇÃO INTELECTUAL

LEONARA PIRAN FRIGERI[1]

RESUMO: A obra O Mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual, menciona que em oposição ao princípio do Embrutecimento, surge o princípio da Emancipação e neste, pode-se ensinar qualquer coisa mesmo desconhecendo o assunto desde que se emancipe o aluno, estimulando-o a desenvolver sua própria inteligência e este seria o Ensino Universal. Já no método Embrutecedor, o da explicação, o mestre mantém-se distante do aluno, pois transmite um conhecimento fragmentado, onde o aluno terá de esperar para aprender mais no ano seguinte, deixando o mestre num grau superior ao seu, ou seja, o aluno, precisará sempre de um mestre explicador para continuar a aprender. Rancière, através da célebre obra, revela de forma clara que a vontade de aprender é o que leva o homem a aprender. Afinal, um ser humano pode o que pode qualquer ser humano. Advém daí a idéia de uma sociedade de emancipados, onde todos saberiam que não existe desigualdade de inteligências. O que existe é a busca e a ambição por sempre querer saber mais e mais.
Palavras-chave: Embrutecimento. Emancipação. Vontade de aprender. Inteligência. Emancipação Intelectual.

SUMMARY: The ignorant master work: five lessons in intellectual emancipationmentions that in opposition to the principle of Brutalization, arises the principle of emancipation. In the latter you can teach anything at all unaware of it since if the student by stimulating emancipe him to develop his own intelligence. And this would be the Universal Education. In the explanation, brutal method, the master remains distant from the student, as a fragmented knowledge channel, in parts, where the student will have to wait to learn more the following year, leaving the master a higher grade to your. In other words, the pupil, will need a master tutor to continue to learn. Rancière, through the famous work, reveals clearly that the willingness to learn is what drives men to learn. After all, a human being can what can any human being. From there the idea of an emancipated society, where everyone would know that there is no gender inequality intellects. What exists is the search and the ambition for always wanting to know more and more.
Keywords: Degradation. Emancipation. Willingness to learn. Intelligence. Intellectual Emancipation.


O Mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual, de autoria de Jacques Rancière, é uma obra de cunho filosófico e traz-nos importantes reflexões sobre a emancipação intelectual dos indivíduos, discutida através da relação entre a educação e a pedagogia, pois “todos os homens têm igual inteligência” e a instrução é como a liberdade, ou seja, não é uma dádiva, precisa de ser conquistada. É um livro que aborda questões


fundamentais sobre o ensino, com proeminência a educação universal, desenvolvido pelo pedagogo Joseph Jacotot, que considerou o caminho para emancipação intelectual.
Ao ler a obra de Rancière vemos que no método emancipador pode-se ensinar qualquer coisa, mesmo sendo ignorante no assunto. Entretanto, para isso, é necessário emancipar o aluno, ou seja, fazer com que o aluno aprenda sozinho, usando apenas sua própria inteligência, e este seria o Ensino Universal, ou seja, o olhar bem para si mesmo, refletir sempre, pois a questão envolvida aqui não é o que o indivíduo sabe ou sobre aquilo que ele não sabe, mas sim sobre o que ele pensa. A obra também aponta que, para emancipar a outrem, é preciso emancipar a si próprio. “É preciso conhecer-se a si mesmo como viajante do espírito, semelhante a todos os outros viajantes, como sujeito intelectual que participa da potência comum dos seres intelectuais.” (RANCIÈRE, 2002, p. 57). E aqui o viajante do espírito se refere àquele que adquire conhecimento.
Em outras palavras, toda a manifestação humana é um arcabouço de oportunidades para o crescimento intelectual, justamente por existir no seio de qualquer manifestação humana um quê de ardiloso, de valioso e intencional. Podemos, então, referir que o autor assume o pressuposto de que não há hierarquia de capacidade intelectual, indicador necessário para fomentar a emancipação.
Sob essa perspectiva, Jacotot desenvolveu seu próprio método que começa pelo texto e não pela gramática, considerando que o método que começa pelas letras “dirige os alunos segundo o princípio da desigualdade intelectual e, sobretudo, da inferioridade intelectual das crianças” (Rancière, 2007: 49). É fundamental que o sujeito seja capaz de interpretar a realidade que o circunda e perceber-se como sujeito participativo no seu contexto social, político e cultural, pois “a emancipação é, antes de tudo, o inventário das competências intelectuais do ignorante” (Rancière, 2007: 61). Nesse sentido, é essencial buscar o todo da inteligência humana em cada manifestação cultural, pois o que embrutece as pessoas não é a ausência de instrução, mas sim a interiorização que as faz acreditar que têm competências e inteligências inferiores.
O desenvolvimento da inteligência pode ser visto como uma associação entre a vontade e o poder racional. É a vontade de aprender e de procurar incessantemente, por iniciativa própria, que confere significado às coisas. Esta racionalidade, guiada pela vontade, gera a verdade. Segundo Ranciére, o princípio da veracidade resulta da experiência da emancipação. No processo de emancipação o homem aproxima-se da verdade, pois a “verdade existe por si mesma; ela é o que é e não o que é dito” (Ranciére, 2007: 88). Neste caso, o mestre explicador desempenha uma função perversa ao limitar os percursos emancipadores de cada indivíduo.
A improvisação é o caminho fundamental para a emancipação e constitui o exercício fundamental para o homem se manifestar, se conhecer e comunicar na e por meio de sua cultura. Assim, a virtude da nossa inteligência está mais em fazer do que em saber. E, como esse fazer é, fundamentalmente, um ato de comunicação, é pela palavra que o saber prolifera: “os pensamentos voam de um espírito a outro nas asas da palavra”, diz o mestre; “todo saber fazer é um querer dizer” (Ranciére, 2007: 98). A emancipação intelectual proposta por Rancière funciona no âmbito de uma lógica individual, que não repercute necessariamente na ordem social.
O espírito humano, sendo caracterizado pelo binômio vontade e inteligência, pode operar de modo atento ou distraído. É a falta de vontade de operar a racionalidade através da inteligência o que dá origem à distração. Esta distração significa um desaproveitamento da potencialidade intelectual.
Daí a dicotomia homem/cidadão e emancipação intelectual/emancipação social. O homem detém a possibilidade da razão, mas esta é inviável para o cidadão; o homem poder-se-á, emancipar intelectualmente e criar uma base de reconhecimento de igualdade entre outros homens que se comunicam, mas esta não se transforma inevitavelmente em igualdade social.
A ideia de emancipação em Rancière é sempre perspectivada numa lógica da relação de indivíduo para indivíduo. A educação será para além de um meio de emancipação intelectual, mas também um meio de emancipação social. O método emancipador de Jacotot difunde a ideia de que todos os homens possuem igual inteligência e “somente um homem pode emancipar outro homem”. As instituições escolares não conseguem realizar tal ação, pois estão impregnadas de valores, de crenças e intencionalidades, e ao formatar este homem, de acordo com esses princípios, ignora o aprendiz dentro da sua história de vida e de seus saberes acumulados antes da sua entrada na instituição escolar. Por isso Rancière, afirma em diversas passagens do livro que o “... Ensino Universal não pode se dirigir senão a indivíduos, jamais à sociedade” (Rancière, 2007: 147).
O Ensino Universal é dirigido a todos, sobretudo aos pobres, que são aqueles que não têm condições de pagar pelo trabalho de um explicador ou de investir longos anos na escola. O Ensino Universal é libertador, emancipador e cria a possibilidade do sujeito se conhecer, bem como conhecer o contexto que o cerca.
Acredito que o apontamento referente à emancipação trazido na obra causa um determinado espanto, e também questionamentos, pois um ser humano emancipado é muito difícil. Entretanto quando começamos a nos conhecer, a nos cuidar, nós vemos como somos dominados por nossos desejos, e esse cuidar de si implica em cuidar do que nos é mais importante. Assim o acesso ao conhecimento de si, passa por duas vertentes; o conhecer a si mesmo e o cuidar de si próprio. Nós começamos a nos conhecer a partir do olhar do outro e cuidamos de nós quando não nos esquecemos quem somos, e esses são aspectos que estão imbricados.
Emancipar-se é um movimento que exige esforço, é arriscar-se, é o movimento daqueles que estão abertos a repensar seus valores e dispostos a renová-los e recriá-los constantemente, mas é também não se distrair do que fundamentalmente somos, é não aceitar tudo sem exame, pois quando assim fazemos pensamos ser aquilo que o outro diz que somos. O homem é um sujeito pensante, mas tem a experiência de si próprio com a ação, sem a ação não existe nada e a ação na inteligência é ver e comparar, portanto não existe uma emancipação que seja para sempre, conhecer a si mesmo trata-se de um movimento sem fim.
É interessante perceber também que relativamente temos que reestruturar nossa mente para podermos aprender, o autor lamenta que as pessoas interiorizem a questão da superioridade ou da inferioridade. Entretanto quando rompemos com superioridade e a inferioridade nós somos livres, tal como também cheio de responsabilidades.
Para Jacques Rancière, o problema da autoridade é uma questão importante e isso na pedagogia é algo constante, contextualizando, podemos citar como exemplo o comportamento de alguns educadores que na falta de paciência diante uma classe de alunos agitados acaba-se por vezes gritando com os estudantes.
Acredito que o livro não trás a proposta do total abandono da relação mestre e aluno, mas nos provoca a pensar na reestruturação dessa relação, como fez o Joseph Jacotot. O professor francês viu-se primeiramente como um ignorante diante a situação pela qual passava, ele próprio reformulou seu pensamento sobre o ato de ensinar após a experiência que teve com seus alunos após a leitura do Telêmaco. A partir dessa experiência vivida por Jacotot podemos perceber que para levar os alunos à emancipação o professor deve emancipar-se, abandonar a ideia de detentor do saber e adotar uma postura de provocador da inteligência de seus alunos.
Entendo que muitas questões acerca do papel do professor podem ser levantadas com a leitura de “O mestre ignorante”, mas vale ressaltar que uma das propostas trazidas no livro é de instigar e possibilitar ao educando o confronto com suas inúmeras possibilidades. A atitude de Jacotot nos faz refletir sobre a questão da necessidade de explicação do mestre, sobre a igualdade das inteligências, entretanto penso que embora Jacotot tenha conseguido emancipar seus alunos, a presença do mestre ainda é importante e tem suas contribuições, pois segundo o autor, também se aprende coisas na escola de embrutecedores, entretanto ela assume um novo desafio, o de dar ao aluno a oportunidade de externar sua inteligência e suas capacidades sem que haja medo, este muitas vezes provocado pela figura de um professor inflexível que se mantém a todo tempo como aquele que não pode ser confrontado.
O conhecimento continua sendo o único caminho para a liberdade, a autonomia, a consciência crítica e a emancipação intelectual. Até as pessoas mais ignorantes podem ter conhecimento sobre infinitas coisas. O professor ou mestre deve ser apenas um mediador da aprendizagem, um facilitador. Segundo Rancière o mestre ignorante, não é aquele que ignora o que o aluno deve aprender, mas que “ignora as desigualdades”. Para Jacques a relação que deve perdurar entre professores e alunos é de inteligência para inteligência. É só a partir desse método que as desigualdades se dissolvem e o aluno pode se sentir confiante e livre para aprender.
Com Jacotot o aluno absorve um novo papel, ele não deve memorizar conteúdos ou apenas assimilar o que o professor ensinou, mas deve ser um indivíduo ativo, buscando ser o criador e protagonista de seu próprio conhecimento. A construção dos conhecimentos acontece quando um sujeito pensante produz sua identidade, sua inteligência, sua autonomia de modo particular, onde os indivíduos se eduquem reciprocamente, vigiados pela cultura, na própria realidade em que vivem. Dessa forma, os indivíduos tornam-se produtores do conhecimento, e não meros reprodutores do saber, onde, segundo Ranciere “é o discípulo que faz o mestre”.
Em toda sua obra Jacques quebra os paradigmas do velho ensinamento quando diz que o mito da pedagogia é a explicação. Isso é muito interessante, pois [...] o segredo do gênio é o do ensino universal: aprender, repetir, imitar, traduzir, decompor, recompor [...]
Por fim, urge enfatizar que se Jacques pudesse apregoaria em todos os murais possíveis o que está escrito na página 111: “é preciso anunciar o ensino universal a todos. Antes de tudo aos pobres, sem qualquer dúvida: eles não têm outro meio de se instruírem, não podem pagar explicadores universais, nem passar longos anos nos bancos escolares”. Esse último trecho é o sumo do livro (...) onde todos os métodos apresentados são muito importantes e essenciais pra uma verdadeira aprendizagem.


REFERENCIAS


RANCIÈRE, Jacques. O Mestre Ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual (trad. Lilian do Valle). Belo Horizonte: Autêntica, 2002.



[1] Alumna del Curso de Maestria en Educación en la Universid del Salvador

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