11/03/2012

Resenha Crítica do texto: "Currículo como espaço-tempo de fronteira cultural"



RESENHA CRÍTICA DO TEXTO “CURRÍCULO COMO ESPAÇO-TEMPO DE FRONTEIRA CULTURAL”, DE ELIZABETH MACEDO

1. IDENTIFICAÇÃO DA OBRA:

OBRA: Currículo Como espaço-tempo de fronteira cultural
AUTOR: Elizabeth Macedo
Revista Brasileira de Educação v. 11 n. 32 maio/ago. 2006.

2. ESTRUTURA DA OBRA:

A obra está dividida em 2 capítulos totalizando 13 páginas.

3. RESENHA DA OBRA:

A autora na primeira parte do texto selecionou várias passagens de diversos autores, não com o objetivo de dar conta da complexidade do pensamento deles, mas apenas para pontuar como, a despeito de falar em práticas de significação, cultura, identidade, as preocupações da teorização política e crítica ainda informam os debates sobre currículo.
Ela entende que essa aproximação tem dificultado a compreensão da dinâmica do currículo como cultura e prejudicado a análise da diferença no interior do espaço-tempo da escola e do currículo. Não lhe parece produtivo assumir que esse espaço-tempo é um lugar de confronto entre culturas com lados definidos, nem que se deve optar por este ou aquele lado. De forma diversa, defende que a diferença cultural não representa apenas “a controvérsia entre conteúdos oposicionais ou tradições antagônicas de valor cultural” (Bhabha, 1998, p. 228) e que, portanto, só pode ser captada em espaços-tempos liminares, num lugar-tempo em que há confronto, mas em que a opção possível estará sempre na nebulosa fronteira em que é preciso negociar e criar impossíveis formas de tradução. Por isso, seu objetivo neste texto é conceitualizar o currículo como um espaço-tempo de fronteira no qual interagem diferentes tradições culturais e em que se pode viver de múltiplas formas.
A autora parte do princípio de que o currículo é um espaço-tempo em que sujeitos diferentes interagem, tendo por referência seus diversos pertencimentos, e que essa interação é um processo cultural que ocorre num lugar-tempo cujas especificidades me interessam estudar. Não fala, portanto, de um espaço-tempo cultural qualquer, embora também dele, mas do currículo escolar.
Defende subsidiada por Ball (1997), que os estudos de currículo precisam buscar compreender as relações entre as restrições e as possibilidades de ações como paradoxos, que podem ser vistos tanto no formal como no vivido. Para tanto, fala de currículo e se refere indistintamente a processos que capta pela memória, ora de documentos curriculares, ora de escolas vivenciadas.
Para a autora a educação emerge de um movimento narrativo duplo: de um lado uma temporalidade continuísta e de outro uma estratégia performática. Por temporalidade continuísta, entende todo um conjunto de saberes culturais legitimados, uma cultura eleita que é função do projeto educacional transmitir. Nesse sentido, a educação apresenta-se e autoriza-se como história, como espaço-tempo da repetição. E há outra temporalidade, que, como Bhabha, chama de performática. Há, na educação, um projeto de significação que nega qualquer temporalidade anterior, qualquer referência a um passado essencialmente bom, o que seria a sua própria negação. A tensão entre repetição e performatividade cria uma zona de ambivalência, um espaço-tempo liminar, em que é possível pensar a existência do outro. Um outro cultural que não é visto a partir das culturas legitimadas pelos currículos escolares, mas que está lá na própria temporalidade introduzida pelo performativo.
Pensa nos currículos escolares como espaço-tempo de fronteira e, portanto, como híbridos culturais, ou seja, como práticas ambivalentes que incluem o mesmo e o outro num jogo em que nem a vitória nem a derrota jamais serão completas. Num processo que explicita a fluidez das fronteiras entre as culturas do eu e do outro e torna menos óbvias e estáticas as relações de poder (García Canclini, 1998). O entendimento do currículo como híbrido cultural parece para ela crucial para pensar a diferença, não como diversidade (Burbules, 2003), mas como um discurso relacional em que o próprio sistema de sua representação está em questionamento.
Para a autora são visíveis os efeitos da absorção da emancipação pela regulação em diferentes esferas do social, entre elas a escola e o currículo. Marcas como a relação entre escola e mercado de trabalho, a colonização do conceito de cidadania por práticas de mercado, a disciplinarização dos currículos, a sobrevalorização das ciências em detrimento das artes são exemplos, entre tantos outros, desses efeitos.
Nas sociedades globais, os localismos assumem diferentes estratégias, do ressurgimento de pertencimentos étnicos a movimentos locais de resistência ao global. De qualquer forma, trata-se de estratégias que não criam algo de totalmente novo, diferente, mas que também não se localizam no tradicional marcado pelos globalismos.
Para a autora o currículo é um espaço-tempo em que as culturas presentes negociam com “a diferença do outro”, que explicita a insuficiência de todo e qualquer sistema de significação. Nele convivem as culturas locais dos variados pertencimentos de alunos e professores com as culturas globais, majoritárias tanto nos currículos escritos quanto, possivelmente, nos vividos nas salas de aula. Ela nega que os currículos oficiais sejam a expressão das culturas globais.
Segundo a autora a lição que Bhabha (1998) tira do colonialismo, e que pode ser útil, é que nenhuma dominação cultural é tão poderosa a ponto de minar os sistemas culturais locais. No entanto, é também verdade que nenhum sistema local fica imune ao colonialismo.
Também para a autora a insistência de diferentes discursos pedagógicos sobre a necessidade de partir do conhecimento do aluno, dos saberes prévios, da realidade concreta e tantos outros epítetos mostra o quanto é necessário nomear o outro. Ao repetir exaustivamente essa nomeação, a cultura iluminista da escola expõe, no entanto, a ambivalência que permeia seu desejo de dominação. A sua superioridade, que, se existe, deveria ser facilmente aceita, precisa, na verdade, ser constantemente salientada. Para isso, apóiam-se numa fantasia de origem capaz de distingui-la das outras culturas, também elas fixadas por meio de estratégias discursivas estereotipadas.
A autora entende que pensar um currículo da diferença envolve que a relação entre universal e particular, como propõe Laclau (1996), seja considerada num espaço cultural liminar em que cada identidade cultural é marcada pela ausência “de muitos outros”, que são constitutivos de sua presença. Assim, para o autor, as várias identidades culturais marcam a incompletude de certo horizonte universal, que será sempre redefinido de modo que nele possam ser negociadas as suas demandas particulares. Trata-se de um universal que se define na contingência, rearticulando os saberes e as culturas que resistem à totalização. Um universal que exige, portanto, uma negociação, na prática, entre tradições que não são apenas antagônicas, mas a marca mais forte da sua própria incompletude e da impossibilidade de um universal acima do particular.
A autora espera que as considerações que desenvolveu permitam a defesa do argumento de que um currículo, para lidar com a diferença, precisa ser pensado como espaço-tempo de negociação cultural. Com esse argumento pretende também recuperar o potencial político da guinada do campo rumo aos estudos sobre cultura, não na perspectiva da teoria crítica e política do currículo, mas entende de que é preciso pensar numa nova forma de agência. Uma agência que nos assume, diz ela, como produtores culturais, como defende Giroux (2001), uma agência que, nas palavras de Bhabha (1998), “requer uma fundamentação, mas não requer que a base dessa fundamentação seja totalizada; requer movimento e manobra, mas não requer uma temporalidade de continuidade e acumulação; requer direção e fechamento contingente, mas nenhuma teleologia e holismo” (p. 257). Um agente que está, enfim, numa posição de negociação com a diferença.
Concordo com a autora, quando ela defende o currículo como um espaço-tempo de fronteira no qual interagem diferentes tradições culturais e em que se pode viver de múltiplas formas, pois percebo o currículo como uma ferramenta de organização ou um suporte nos espaços escolares, mas não como um limitante, deve ser flexível e de construído de acordo com a realidade local.
Também quando a autora afirma que o currículo é um espaço-tempo em que as culturas presentes negociam com “a diferença do outro”. Nesse espaço convivem as culturas locais trazidas para a escola pelos alunos e pelos professores com as culturas globais, e estas tendem a prevalecer sobre as culturas locais, mas que também deve ser trabalhada em sala de aula. O que não se pode fazer é deixar de trabalhar a cultura local em detrimento da outra, deve-se partir do local para então trabalhar o global e esclarecer as diferentes culturas presentes na sociedade de hoje, pois não vivemos isolados e uma cultura não consegue se manter imune as mudanças sociais e culturais. Há uma dinâmica imperceptível que vai ocorrendo com o passar do tempo.

Um comentário:

  1. Olá, estou aqui, seguindo-te pelo blogue.
    O seu blogue, é um espaço, simplesmente - Fenomenal -
    Estou aguardando uma visita sua, e, um comentário lá no meu blogue. Seguir-me, ou, não é uma expressão sua.

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