RESENHA CRÍTICA DO TEXTO “CURRÍCULO COMO ESPAÇO-TEMPO DE FRONTEIRA
CULTURAL”, DE ELIZABETH MACEDO
1. IDENTIFICAÇÃO DA OBRA:
OBRA: Currículo Como espaço-tempo de fronteira cultural
AUTOR: Elizabeth
Macedo
Revista Brasileira de Educação v. 11 n. 32 maio/ago.
2006.
2. ESTRUTURA DA OBRA:
A obra está dividida em 2
capítulos totalizando 13 páginas.
3. RESENHA DA OBRA:
A autora na
primeira parte do texto selecionou várias passagens de diversos autores, não
com o objetivo de dar conta da complexidade do pensamento deles, mas apenas
para pontuar como, a despeito de falar em práticas de significação, cultura,
identidade, as preocupações da teorização política e crítica ainda informam os
debates sobre currículo.
Ela entende que essa
aproximação tem dificultado a compreensão da dinâmica do currículo como cultura
e prejudicado a análise da diferença no interior do espaço-tempo da escola e do
currículo. Não lhe parece produtivo assumir que esse espaço-tempo é um lugar de
confronto entre culturas com lados definidos, nem que se deve optar por este ou
aquele lado. De forma diversa, defende que a diferença cultural não representa
apenas “a controvérsia entre conteúdos oposicionais ou tradições antagônicas de
valor cultural” (Bhabha, 1998, p. 228) e que, portanto, só pode ser captada em
espaços-tempos liminares, num lugar-tempo em que há confronto, mas em que a
opção possível estará sempre na nebulosa fronteira em que é preciso negociar e
criar impossíveis formas de tradução. Por isso, seu objetivo neste texto é
conceitualizar o currículo como um espaço-tempo de fronteira no qual interagem diferentes
tradições culturais e em que se pode viver de múltiplas formas.
A autora parte
do princípio de que o currículo é um espaço-tempo em que sujeitos diferentes
interagem, tendo por referência seus diversos pertencimentos, e que essa
interação é um processo cultural que ocorre num lugar-tempo cujas
especificidades me interessam estudar. Não fala, portanto, de um espaço-tempo
cultural qualquer, embora também dele, mas do currículo escolar.
Defende
subsidiada por Ball (1997), que os estudos de currículo precisam buscar
compreender as relações entre as restrições e as possibilidades de ações como
paradoxos, que podem ser vistos tanto no formal como no vivido. Para tanto,
fala de currículo e se refere indistintamente a processos que capta pela
memória, ora de documentos curriculares, ora de escolas vivenciadas.
Para a autora a
educação emerge de um movimento narrativo duplo: de um lado uma temporalidade
continuísta e de outro uma estratégia performática. Por temporalidade continuísta,
entende todo um conjunto de saberes culturais legitimados, uma cultura eleita
que é função do projeto educacional transmitir. Nesse sentido, a educação
apresenta-se e autoriza-se como história, como espaço-tempo da repetição. E há
outra temporalidade, que, como Bhabha, chama de performática. Há, na educação,
um projeto de significação que nega qualquer temporalidade anterior, qualquer
referência a um passado essencialmente bom, o que seria a sua própria negação.
A tensão entre repetição e performatividade cria uma zona de ambivalência, um
espaço-tempo liminar, em que é possível pensar a existência do outro. Um outro
cultural que não é visto a partir das culturas legitimadas pelos currículos
escolares, mas que está lá na própria temporalidade introduzida pelo
performativo.
Pensa nos
currículos escolares como espaço-tempo de fronteira e, portanto, como híbridos
culturais, ou seja, como práticas ambivalentes que incluem o mesmo e o outro
num jogo em que nem a vitória nem a derrota jamais serão completas. Num
processo que explicita a fluidez das fronteiras entre as culturas do eu e do
outro e torna menos óbvias e estáticas as relações de poder (García Canclini,
1998). O entendimento do currículo como híbrido cultural parece para ela crucial
para pensar a diferença, não como diversidade (Burbules, 2003), mas como um
discurso relacional em que o próprio sistema de sua representação está em
questionamento.
Para a autora
são visíveis os efeitos da absorção da emancipação pela regulação em diferentes
esferas do social, entre elas a escola e o currículo. Marcas como a relação
entre escola e mercado de trabalho, a colonização do conceito de cidadania por
práticas de mercado, a disciplinarização dos currículos, a sobrevalorização das
ciências em detrimento das artes são exemplos, entre tantos outros, desses
efeitos.
Nas sociedades
globais, os localismos assumem diferentes estratégias, do ressurgimento de
pertencimentos étnicos a movimentos locais de resistência ao global. De
qualquer forma, trata-se de estratégias que não criam algo de totalmente novo,
diferente, mas que também não se localizam no tradicional marcado pelos
globalismos.
Para a autora o
currículo é um espaço-tempo em que as culturas presentes negociam com “a
diferença do outro”, que explicita a insuficiência de todo e qualquer sistema
de significação. Nele convivem as culturas locais dos variados pertencimentos
de alunos e professores com as culturas globais, majoritárias tanto nos
currículos escritos quanto, possivelmente, nos vividos nas salas de aula. Ela
nega que os currículos oficiais sejam a expressão das culturas globais.
Segundo a autora
a lição que Bhabha (1998) tira do colonialismo, e que pode ser útil, é que
nenhuma dominação cultural é tão poderosa a ponto de minar os sistemas
culturais locais. No entanto, é também verdade que nenhum sistema local fica
imune ao colonialismo.
Também para a
autora a insistência de diferentes discursos pedagógicos sobre a necessidade de
partir do conhecimento do aluno, dos saberes prévios, da realidade concreta e
tantos outros epítetos mostra o quanto é necessário nomear o outro. Ao repetir
exaustivamente essa nomeação, a cultura iluminista da escola expõe, no entanto,
a ambivalência que permeia seu desejo de dominação. A sua superioridade, que,
se existe, deveria ser facilmente aceita, precisa, na verdade, ser
constantemente salientada. Para isso, apóiam-se numa fantasia de origem capaz
de distingui-la das outras culturas, também elas fixadas por meio de
estratégias discursivas estereotipadas.
A autora entende
que pensar um currículo da diferença envolve que a relação entre universal e
particular, como propõe Laclau (1996), seja considerada num espaço cultural
liminar em que cada identidade cultural é marcada pela ausência “de muitos
outros”, que são constitutivos de sua presença. Assim, para o autor, as várias
identidades culturais marcam a incompletude de certo horizonte universal, que
será sempre redefinido de modo que nele possam ser negociadas as suas demandas
particulares. Trata-se de um universal que se define na contingência,
rearticulando os saberes e as culturas que resistem à totalização. Um universal
que exige, portanto, uma negociação, na prática, entre tradições que não são
apenas antagônicas, mas a marca mais forte da sua própria incompletude e da
impossibilidade de um universal acima do particular.
A autora espera
que as considerações que desenvolveu permitam a defesa do argumento de que um
currículo, para lidar com a diferença, precisa ser pensado como espaço-tempo de
negociação cultural. Com esse argumento pretende também recuperar o potencial
político da guinada do campo rumo aos estudos sobre cultura, não na perspectiva
da teoria crítica e política do currículo, mas entende de que é preciso pensar
numa nova forma de agência. Uma agência que nos assume, diz ela, como
produtores culturais, como defende Giroux (2001), uma agência que, nas palavras
de Bhabha (1998), “requer uma fundamentação, mas não requer que a base dessa
fundamentação seja totalizada; requer movimento e manobra, mas não requer uma
temporalidade de continuidade e acumulação; requer direção e fechamento contingente,
mas nenhuma teleologia e holismo” (p. 257). Um agente que está, enfim, numa
posição de negociação com a diferença.
Concordo com a
autora, quando ela defende o currículo como um espaço-tempo de fronteira no
qual interagem diferentes tradições culturais e em que se pode viver de
múltiplas formas, pois percebo o currículo como uma ferramenta de organização
ou um suporte nos espaços escolares, mas não como um limitante, deve ser
flexível e de construído de acordo com a realidade local.
Também quando a
autora afirma que o currículo é um espaço-tempo em que as culturas presentes
negociam com “a diferença do outro”. Nesse espaço convivem as culturas locais trazidas
para a escola pelos alunos e pelos professores com as culturas globais, e estas
tendem a prevalecer sobre as culturas locais, mas que também deve ser
trabalhada em sala de aula. O que não se pode fazer é deixar de trabalhar a
cultura local em detrimento da outra, deve-se partir do local para então
trabalhar o global e esclarecer as diferentes culturas presentes na sociedade
de hoje, pois não vivemos isolados e uma cultura não consegue se manter imune
as mudanças sociais e culturais. Há uma dinâmica imperceptível que vai
ocorrendo com o passar do tempo.
Olá, estou aqui, seguindo-te pelo blogue.
ResponderExcluirO seu blogue, é um espaço, simplesmente - Fenomenal -
Estou aguardando uma visita sua, e, um comentário lá no meu blogue. Seguir-me, ou, não é uma expressão sua.